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Você sabe qual a relação entre ronco e apneia?

Dr. Luiz Herculano explica a relação entre ronco e apneia obstrutiva do sono: quando o ronco é sinal de alerta, riscos cardiovasculares e como investigar.

Por Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior — CRM 139704 SP | RQE 53167

Quase toda semana alguém senta na minha cadeira de consultório e diz: “Doutor, minha esposa diz que eu ronco demais. Será que é apneia?” É uma boa pergunta — e o fato de estar sendo feita já é um sinal de que alguma coisa acordou (sem trocadilho). Ronco e apneia do sono estão relacionados, mas não são a mesma coisa. Nem todo ronco significa apneia, e nem toda apneia se manifesta com ronco alto. Entender onde um termina e o outro começa é o que permite tratar o problema certo — e evitar ignorar algo que pode, de fato, trazer consequências sérias para a saúde.

O que acontece na garganta quando você ronca

O ronco é o som produzido pela vibração dos tecidos moles da faringe — palato mole, úvula, paredes laterais — quando o ar passa por uma via aérea parcialmente estreitada durante o sono. É um fenômeno mecânico: durante o sono, a musculatura relaxa, a língua se desloca para trás e a passagem de ar fica menor. Se a turbulência for suficiente, aparece o barulho.

As causas desse estreitamento variam: formato do palato, posição da mandíbula, presença de amígdalas volumosas, hipertrofia de cornetos, desvio de septo, acúmulo de tecido adiposo na região cervical. Por isso dois pacientes podem roncar com intensidade parecida e ter causas completamente diferentes. E é justamente esse detalhe que importa quando a pergunta é “será que é apneia?”.

Quando o ronco vira apneia obstrutiva do sono

A apneia obstrutiva do sono acontece quando a via aérea não apenas estreita, mas colapsa — total ou parcialmente — durante o sono, interrompendo ou reduzindo o fluxo de ar. Segundo os critérios da AASM (American Academy of Sleep Medicine), publicados no Journal of Clinical Sleep Medicine em 2012, uma apneia é definida como a queda de 90% ou mais do fluxo aéreo por pelo menos 10 segundos; uma hipopneia é uma redução de 30% ou mais, acompanhada de queda de 3% na saturação de oxigênio ou de um microdespertar.


como acontece a apneia obstrutiva do sono

Em linguagem de consultório: o paciente para de respirar (apneia) ou quase para (hipopneia), o oxigênio no sangue cai, o cérebro detecta a emergência e acorda a pessoa brevemente para restaurar o tônus da musculatura. O paciente geralmente nem percebe esses despertares — pode ter 30, 40, 60 por hora — e acorda de manhã com a sensação de que dormiu mal sem saber por quê. O ronco costuma acompanhar esse ciclo, mas é o efeito colateral sonoro, não a doença em si.

Números que ajudam a dimensionar o problema

A apneia obstrutiva do sono é uma condição frequente, e os números brasileiros ajudam a entender a escala. O Estudo Epidemiológico do Sono de São Paulo (EPISONO), conduzido por Tufik e colaboradores na UNIFESP e publicado na Sleep Medicine em 2010, encontrou prevalência de apneia obstrutiva em 32,8% da população adulta de São Paulo, com base em polissonografia — não em questionário. Homens apresentaram risco 4 vezes maior que mulheres, e a associação com obesidade foi particularmente forte: indivíduos obesos tiveram risco 10,5 vezes maior que os de peso normal.

Em escala global, a estimativa publicada no Lancet Respiratory Medicine em 2019 (Benjafield e colaboradores) aponta que aproximadamente 936 milhões de adultos entre 30 e 69 anos vivem com apneia obstrutiva do sono no mundo, dos quais 425 milhões com formas moderadas a graves. O Brasil está entre os quatro países mais afetados.

Esses números importam porque contrastam com o que eu vejo na prática: a maioria dos pacientes com apneia não sabe que tem. Chega ao consultório por causa do ronco ou porque a parceira insistiu. O subdiagnóstico é enorme.

O índice de apneia-hipopneia: o número que define a gravidade

O índice de apneia-hipopneia (IAH) é o resultado central da polissonografia. Ele conta quantas vezes o paciente para ou quase para de respirar por hora de sono. A classificação de gravidade segue critérios internacionais padronizados: IAH abaixo de 5 eventos por hora é considerado normal; de 5 a 14, apneia leve; de 15 a 29, moderada; 30 ou mais, grave.

Esse número orienta todo o tratamento. Um IAH de 6 com paciente sem sonolência pode pedir acompanhamento e medidas comportamentais. Um IAH de 45 com dessaturação de oxigênio durante o sono provavelmente vai precisar de CPAP. Quem quiser entender em detalhe as opções terapêuticas para cada faixa, eu já escrevi sobre isso no artigo sobre como diminuir o ronco. Aqui o foco é entender o que o IAH significa e por que a polissonografia é o ponto de partida obrigatório.

O que a apneia faz com o corpo além do cansaço

A consequência mais imediata da apneia é a fragmentação do sono — o paciente não completa os ciclos normais, acumula privação crônica e acorda cansado. Mas os efeitos vão além do cansaço. A American Heart Association publicou em 2021, na revista Circulation, um posicionamento científico formal sobre a relação entre apneia obstrutiva do sono e doença cardiovascular. Segundo esse documento, a prevalência de apneia chega a 40-80% em pacientes com hipertensão, insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana, hipertensão pulmonar, fibrilação atrial e acidente vascular cerebral.

Os mecanismos que conectam apneia ao coração são conhecidos: a hipóxia intermitente (quedas repetidas de oxigênio durante a noite) ativa o sistema nervoso simpático, aumenta a pressão arterial, gera estresse oxidativo e desencadeia inflamação sistêmica. Com o tempo, isso favorece aterosclerose, arritmias e remodelamento cardíaco.

Uma meta-análise publicada na Neurological Sciences em 2022 (Salari e colaboradores), com dados de 24 estudos de coorte, encontrou que pacientes com apneia obstrutiva do sono apresentam risco 1,86 vez maior de acidente vascular cerebral e risco 1,48 vez maior de doença coronariana em comparação com indivíduos sem apneia. Não são números desprezíveis — e reforçam que a apneia não é apenas um problema de sono.

Quem deve investigar: sinais de alerta no consultório

Nem todo ronco precisa de polissonografia. Mas alguns sinais de alerta tornam a investigação necessária. Eu costumo explicar aos pacientes que devem procurar avaliação quando percebem — ou quando alguém percebe por eles — alguma dessas situações: pausas respiratórias durante o sono relatadas pelo parceiro; engasgos ou despertar súbito com sensação de sufocamento; sonolência diurna excessiva mesmo após tempo suficiente na cama; cansaço desproporcional ao esforço; dor de cabeça matinal; dificuldade de concentração e memória; irritabilidade frequente sem causa aparente.

Existem também fatores de risco que aumentam a probabilidade de apneia: obesidade (especialmente com circunferência cervical elevada), sexo masculino, idade acima de 50 anos, histórico familiar, uso regular de álcool ou sedativos antes de dormir, e alterações anatômicas da via aérea superior. A presença de hipertensão arterial resistente ao tratamento, por exemplo, deve levar o cardiologista a considerar apneia como causa subjacente.


otorrino anamnese paciente com ronco

Na avaliação presencial, a nasofibrolaringoscopia permite examinar toda a via aérea superior — do nariz à laringe — e identificar pontos de obstrução que contribuem para o ronco e a apneia. É um exame feito em consultório, sem sedação, que complementa o quadro clínico antes de solicitar a polissonografia.

Apneia em mulheres: o subdiagnóstico que eu vejo no consultório

A apneia obstrutiva do sono é mais prevalente em homens — o estudo EPISONO mostrou risco 4 vezes maior no sexo masculino. Mas isso não significa que mulheres estejam protegidas. O posicionamento da AHA de 2021 aponta que 17% das mulheres de meia-idade preenchem critérios diagnósticos para apneia. Após a menopausa, a prevalência aumenta, provavelmente pela queda dos hormônios que ajudam a manter o tônus da musculatura faríngea.

O problema é que os sintomas em mulheres costumam ser diferentes. Enquanto o homem clássico chega queixando-se de ronco alto e a parceira relata pausas respiratórias, a mulher com apneia frequentemente apresenta insônia, fadiga crônica, alterações de humor e dificuldade de concentração — sintomas que são facilmente atribuídos a estresse, ansiedade ou menopausa. O resultado é subdiagnóstico: a apneia não é sequer considerada.

Por isso, quando uma paciente chega com cansaço desproporcional e sono não reparador, a apneia entra no meu diagnóstico diferencial mesmo que ela diga “mas eu nem ronco, doutor”. A polissonografia é o que confirma ou descarta.

O papel do otorrino na investigação da apneia

O otorrinolaringologista avalia a via aérea superior — nariz, faringe, laringe — e identifica fatores anatômicos que podem causar ou agravar tanto o ronco quanto a apneia. Desvio de septo, hipertrofia de cornetos, palato mole alongado, amígdalas volumosas, retrognatia: tudo isso pode contribuir para o colapso da via aérea durante o sono.

Na consulta de especialista em ronco, o que eu faço é montar um panorama: histórico do sono, fatores de risco, exame físico detalhado, nasofibrolaringoscopia quando indicada. A partir dali, decido se a polissonografia é necessária, avalio os resultados quando ela volta, e discuto com o paciente as opções de tratamento. Em muitos casos, o acompanhamento envolve também o pneumologista, o cardiologista e o fonoaudiólogo — a apneia é, por natureza, uma condição multidisciplinar.

Se a apneia for diagnosticada, as opções terapêuticas dependem da gravidade e da causa. Esse panorama completo de tratamentos — de medidas comportamentais a CPAP, aparelho intraoral e cirurgia — está detalhado no artigo sobre como diminuir o ronco. E para quem quer entender o papel da alimentação e do álcool, temos o artigo sobre alimentos que pioram o ronco.

Perguntas frequentes sobre ronco e apneia

Todo mundo que ronca tem apneia do sono?

Não. Ronco primário (sem apneia) é comum e pode existir isoladamente. O estudo EPISONO encontrou prevalência de apneia obstrutiva em 32,8% dos adultos de São Paulo, o que significa que muitos roncam sem ter apneia — e muitos têm apneia sem ronco evidente. A polissonografia é o que diferencia.

Quais os sinais de que o ronco pode indicar apneia?

Pausas respiratórias durante o sono, engasgos noturnos, sonolência diurna excessiva, cansaço crônico, dor de cabeça ao acordar e dificuldade de concentração. A presença de qualquer desses sinais justifica investigação com polissonografia.

O que é o índice de apneia-hipopneia?

É o número de eventos respiratórios (apneias e hipopneias) por hora de sono, registrado pela polissonografia. Abaixo de 5 é normal; 5-14, apneia leve; 15-29, moderada; 30 ou mais, grave.

Apneia do sono causa problemas no coração?

Sim. O posicionamento científico da American Heart Association (2021) documenta que a prevalência de apneia chega a 40-80% em pacientes com hipertensão, insuficiência cardíaca, doença coronariana e fibrilação atrial. Os mecanismos envolvem hipóxia intermitente, ativação simpática e inflamação sistêmica.

Mulheres também têm apneia do sono?

Sim. É mais frequente em homens, mas 17% das mulheres de meia-idade preenchem critérios diagnósticos. Após a menopausa, a prevalência aumenta. O subdiagnóstico em mulheres é comum porque os sintomas predominantes — insônia, fadiga, alterações de humor — diferem do padrão masculino clássico.

Ronco em criança também pode ser apneia?

Sim. Crianças que roncam habitualmente (mais de 3 noites por semana) devem ser avaliadas. A causa mais frequente em crianças é hipertrofia de adenoide e amígdalas. Na Clínica Garrafa, a avaliação pediátrica é feita pela Dra. Renata Garrafa (CRM 158107 SP | RQE 61485).

Qual exame confirma se tenho apneia do sono?

A polissonografia, realizada durante uma noite de sono em laboratório. O Consenso da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (2022) mantém a polissonografia como exame de referência para diagnóstico e classificação de gravidade da apneia obstrutiva do sono em adultos.

Fontes

  1. Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LRA. Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study. Sleep Med. 2010;11(5):441-446. PubMed 20362502
  2. Benjafield AV, Ayas NT, Eastwood PR, et al. Estimation of the global prevalence and burden of obstructive sleep apnoea: a literature-based analysis. Lancet Respir Med. 2019;7(8):687-698. PubMed 31300334
  3. Yeghiazarians Y, Jneid H, Tietjens JR, et al. Obstructive Sleep Apnea and Cardiovascular Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2021;144(3):e56-e67. PubMed 34148375
  4. Salari N, Khazaie H, Abolfathi M, et al. The effect of obstructive sleep apnea on the increased risk of cardiovascular disease: a systematic review and meta-analysis. Neurol Sci. 2022;43(3):2039-2052. PubMed 34797460
  5. Berry RB, et al. Rules for scoring respiratory events in sleep: update of the 2007 AASM Manual for the Scoring of Sleep and Associated Events. J Clin Sleep Med. 2012;8(5):597-619. PubMed 23066376
  6. Duarte RLM, Togeiro SMGP, Palombini LO, et al. Brazilian Thoracic Association Consensus on Sleep-disordered Breathing. J Bras Pneumol. 2022;48(4):e20220106. PubMed 35830079

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Nenhuma informação aqui substitui a avaliação médica presencial individualizada.


Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior — CRM 139704 SP | RQE 53167. Otorrinolaringologista com atuação em medicina do sono. Atende na Clínica Garrafa, em São Paulo (Vila Clementino), com foco em ronco, apneia obstrutiva do sono e avaliação multidisciplinar de distúrbios respiratórios do sono.

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