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Ronco e Intimidade Sexual: como lidar com o ronco no relacionamento

A relação entre ronco e intimidade sexual é complexa e subestimada. Representa um dos aspectos mais significativos que afetam relacionamentos

Por Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior — Otorrinolaringologia e medicina do sono — CRM 139704 SP | RQE 53167

Quase toda consulta por ronco começa do mesmo jeito. Entra o casal, senta. Um dos dois olha firme para mim, cruza os braços e diz alguma variação de “doutor, alguma coisa precisa ser feita”. O outro, meio encurvado, solta um sorriso amarelo e se defende com a clássica: “eu ronco, mas é baixinho”. Nessa hora, o primeiro dá uma risadinha de canto e o segundo descobre que ninguém acredita nele.

Em 95% das vezes a questão não é se a pessoa ronca. É se esse ronco é só um barulho incômodo, ou se ele é a versão sonora de um problema maior — a apneia obstrutiva do sono — que está cobrando um preço alto sem ninguém perceber. Esse é o trabalho que eu faço: separar esses dois cenários e, a partir daí, conversar sobre o que dá para resolver.

Ronco raramente é “só ronco”

Ronco é barulho. Até aí tudo bem. O problema é que, em parte dos casos, esse barulho é a parte que todo mundo escuta de uma obstrução respiratória que está acontecendo várias vezes por hora, com queda de oxigênio e despertares que o paciente nem lembra. É a apneia obstrutiva do sono (SAOS).

Não é exagero nem alarmismo de consultório. A diretriz brasileira Apneia obstrutiva do sono e ronco primário: tratamento, de 2014, assinada em conjunto pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), pela Academia Brasileira de Neurologia, Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, dentro do Projeto Diretrizes AMB/CFM, deixa isso muito claro: o tratamento precisa ser individual, multidisciplinar e ancorado em critérios objetivos. Traduzindo: não dá para chutar.


medico especialista em ronco atendendo casal

E o que eu noto no dia a dia é que muita gente passa anos convivendo com o rótulo de “sempre roncou” quando, na real, está carregando uma apneia no piloto automático.

Duas histórias que parecem a mesma e não são

O ronco primário

É o ronco “puro”. Faz barulho, incomoda quem dorme ao lado, às vezes atrapalha viagem em família, mas não vem com pausas respiratórias clinicamente significativas nem queda de oxigenação. É um problema de convivência, não de sistema cardiovascular.

O ronco da apneia

Esse já é outro bicho. Vem acompanhado de pausas, engasgos, despertares bruscos, boca seca pela manhã, dor de cabeça, sonolência diurna que não é “preguicinha”. A American Academy of Sleep Medicine define bem a apneia obstrutiva como uma condição comum e séria em que a pessoa para de respirar brevemente várias vezes por noite sem se lembrar disso na manhã seguinte.

Qual é o seu caso? A resposta honesta é: eu só sei depois da consulta e, muitas vezes, da polissonografia. Quem tenta decidir isso no chute, erra.

O parceiro é parte do diagnóstico (sério, ele é)

Gosto muito quando o casal vem junto. Sei que soa estranho, mas faz sentido: a pessoa que dorme ao lado é a única testemunha de tudo o que acontece no quarto a partir da meia-noite. O paciente só sabe que acordou cansado. O parceiro sabe que houve três apneias de vinte segundos às três da manhã, um engasgo às quatro, e um silêncio de vinte segundos que deixou ele meio em pânico.

Tanto é que o NHS britânico, em sua orientação oficial sobre apneia do sono, recomenda textualmente levar alguém que tenha observado os sintomas. É um pedaço do diagnóstico que o paciente literalmente não tem acesso.

Quando o casal chega junto, peço ao parceiro para descrever:

  • – se o ronco é toda noite ou só em algumas;
  • – se já presenciou pausas, engasgos ou despertares bruscos;
  • – se tem agitação durante a noite, sudorese, levantar pra ir ao banheiro;
  • – se o ronco muda quando a pessoa dorme de lado, de barriga pra cima, depois de beber.

Dessas respostas sai metade do plano.

Como o sono ruim mexe com o casal — sem filosofar

O humor vai para o brejo

Isso é o que chega primeiro no consultório e o que mais atrapalha o relacionamento. Noites mal dormidas viram dias ruins. Dias ruins viram semanas de paciência curta. Semanas viram “a gente não se entende mais”. Parte relevante do que o casal descreve como crise de convivência é, na verdade, privação crônica de sono com nome errado.

Não é eu psicanalisando — é a parte mais fácil de observar. Quando o sono arruma, o humor arruma. Quando o humor arruma, o resto da conversa fica possível.

O coração paga o pato

Aqui a coisa fica mais séria e eu deixo o tom leve de lado por um minuto. A American Heart Association, em material publicado em 2023, é explícita: a apneia obstrutiva do sono se associa a hipertensão, acidente vascular cerebral, doença arterial coronariana, disfunção diastólica do ventrículo esquerdo e risco aumentado de insuficiência cardíaca.

Ou seja: tratar apneia não é só sobre “parar de roncar”. É cardiologia preventiva embrulhada em otorrino. Quando explico isso em consulta, a conversa muda de registro. E é nessa hora que, normalmente, o paciente para de achar que veio por causa do parceiro.

E a intimidade?

Sim, a intimidade entra na conta — e vou ser honesto: evito prometer números que não consigo referenciar em fonte oficial. Mas o que a clínica mostra é consistente. Pessoa cansada, irritada, com pouca disposição, tende a ter menos interesse por atividades de proximidade, incluindo sexuais. Casal cansado, idem. Quando a causa é tratada, o clima entre os dois costuma melhorar — não porque a apneia apagava uma paixão oculta, mas porque dormir bem devolve disposição, paciência e presença. E isso é o combustível da maior parte dos relacionamentos.

“Divórcio do sono” — pode, mas cuidado com o verdadeiro problema

Tem casais que resolvem dormir em quartos separados. Às vezes isso é ótimo: o parceiro finalmente dorme, a convivência melhora, a queixa imediata some. Meu pé atrás é quando isso vira desfecho permanente sem ninguém investigar o ronco. Porque daí é como tirar o alarme de incêndio da parede: o barulho chato acaba, mas o incêndio segue acontecendo em silêncio.

Separar de quarto pode ser parte do caminho. Não pode ser o ponto final.

O passo-a-passo que eu sigo em consultório

Primeiro, ouvir

O casal, o paciente, a queixa, o histórico. Parece óbvio, mas é onde a maior parte da medicina acontece.

Exame físico do aparelho respiratório superior

Nariz, orofaringe, palato, úvula, amígdalas, pescoço. Quando faz sentido, faço nasofibrolaringoscopia na hora — é rápido, é bem tolerado, e me dá uma foto direta da via aérea que nenhum outro exame substitui.

Polissonografia quando indicada

É o exame que define se tem apneia, quão grave ela é e onde ela bate mais forte. Sem polissonografia, tratamento de apneia é tiro no escuro. Essa é a minha regra.


polissonografia para diagnosticar ronco e apneia

Tratamento individualizado

Depois disso, a gente conversa sobre o que faz sentido. Algumas das opções:

  • Mudança de hábitos: redução de peso quando aplicável, evitar álcool antes de dormir, higiene do sono, tratamento de rinite e obstrução nasal crônica. Simples, barato, subestimado.
  • CPAP: padrão para apneia moderada e grave. Chato nos primeiros dias, transformador nos primeiros meses — para quem adere.
  • Dispositivo intraoral (DAM): opção para apneia leve a moderada, ou para quem não se adapta ao CPAP. Feito por dentista especializado em sono, mas a indicação passa pela nossa avaliação.
  • Cirurgia: em casos selecionados, quando existe um ponto anatômico obstrutivo claro. Aqui entram, por exemplo, indicações específicas de uvulopalatofaringoplastia ou de septoplastia quando há desvio de septo contribuindo para a obstrução.

Não existe tratamento universal. Existe tratamento certo para aquele paciente, e às vezes a resposta honesta é “essa cirurgia aqui não vai te ajudar tanto quanto você imagina — vamos por outro caminho”.

O que eu gosto de deixar claro para o casal no fim da consulta

Primeiro: ronco não é falta de consideração. Ninguém ronca por teimosia. É um problema médico, e tratar bem o problema é mais elegante do que discutir com o parceiro às três da manhã.

Segundo: adaptar-se por anos a um ronco alto e persistente é, com frequência, uma péssima estratégia. Pelo lado cardiovascular e pelo lado do convívio.

Terceiro: quando a investigação é feita direito e o tratamento é o correto, a melhora tende a aparecer — e costuma aparecer para os dois, não só para quem roncava.

Se esse texto descreve o que acontece na cama de vocês, o próximo passo não é discussão, é avaliação. Atendo casos de ronco e apneia na consulta com especialista em ronco da Clínica Garrafa, em Vila Clementino, São Paulo. E pode trazer o parceiro — ele faz parte do diagnóstico.

Este texto tem caráter educativo e não substitui avaliação médica individual.

Perguntas que costumo responder nas consultas

Ronco alto sempre significa apneia?
Não. Tem o ronco primário e tem o ronco de apneia. A diferença só sai com consulta e, quando indicada, polissonografia.

Por que o parceiro é quem costuma puxar o paciente pro consultório?
Porque é o único que tem visão direta do que acontece à noite — engasgos, pausas, despertares. Isso é dado clínico.

O ronco do meu parceiro afeta minha saúde?
Afeta. Privação de sono por conta do barulho ao lado se traduz em cansaço, humor difícil e queda de disposição. Não é frescura.

Dormir em quartos separados resolve?
Pode aliviar, mas não diagnostica nem trata a causa. Se o ronco é da apneia, o problema continua acontecendo no outro quarto.

Tem relação com pressão alta e coração?
Tem. A American Heart Association documenta a relação com hipertensão, AVC, doença coronariana e insuficiência cardíaca.

CPAP é sempre o tratamento?
Não. É padrão para apneia moderada e grave, mas existem alternativas. A indicação é individual.

Cirurgia resolve?
Em casos bem selecionados, com ponto anatômico obstrutivo claro. Fora disso, costuma não ser o melhor caminho.

Preciso levar meu parceiro na consulta?
Adoro quando vocês vêm juntos. Ajuda o diagnóstico e costuma melhorar a adesão ao tratamento.

Sobre o autor
Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior é médico otorrinolaringologista com atuação direcionada ao atendimento de ronco e medicina do sono na Clínica Garrafa, em São Paulo. Atende na Rua Dr. Diogo de Faria, 1087, cj. 1001, Vila Clementino. CRM 139704 SP | RQE 53167. Para agendamento, entre em contato com a clínica.

Fontes

  1. Zancanella E, Haddad FM, Oliveira LAMP et al. Apneia obstrutiva do sono e ronco primário: tratamento. Diretriz conjunta ABORL-CCF, Academia Brasileira de Neurologia, Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia — Projeto Diretrizes AMB/CFM. Publicada em Braz J Otorhinolaryngol. 2014;80(1 Supl. 1):S17-S28. aborlccf.org.br
  2. American Academy of Sleep Medicine — Sleep Education. Obstructive Sleep Apnea. sleepeducation.org/sleep-disorders/obstructive-sleep-apnea
  3. American Heart Association. Sleep Apnea and Heart Health. Revisão de junho/2023. heart.org/en/health-topics/sleep-disorders/sleep-apnea-and-heart-disease-stroke
  4. National Health Service (NHS). Sleep apnoea. Revisão de setembro/2022. nhs.uk/conditions/sleep-apnoea
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