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Como diminuir o Ronco?

Dr. Luiz Herculano explica os tratamentos do ronco baseados em evidência: CPAP, aparelho intraoral, exercícios orofaríngeos e quando a cirurgia é indicada.

Por Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior — CRM 139704 SP | RQE 53167

Outro dia um paciente entrou no consultório e disse: “Doutor, minha esposa me filmou roncando. Parecia um trator engasgado.” Eu ri, ele riu — mas a esposa, aparentemente, não achou tanta graça. Roncar é engraçado até ser um problema real. E com frequência é. O ronco acontece quando as vias aéreas superiores se estreitam durante o sono, fazendo os tecidos da faringe vibrarem com a passagem do ar. Às vezes é incômodo; outras, é sinal de apneia obstrutiva do sono, uma condição que interrompe a respiração repetidamente durante a noite e traz riscos cardiovasculares documentados.

O que eu percebo no consultório é que muita gente chega com uma pergunta direta: “tem como diminuir esse ronco?” Tem. Mas a resposta depende de entender primeiro o que está causando aquele ronco específico. Eu vou percorrer os tratamentos que a literatura médica sustenta, com suas indicações e limitações reais — sem promessa milagrosa, sem lista de truques mágicos.

Polissonografia: o exame que divide o caminho

A polissonografia é o exame que registra atividade cerebral, respiração, oxigenação e movimentos durante o sono, e é a ferramenta que separa o ronco primário da apneia obstrutiva. Sem esse exame, qualquer tratamento é tiro no escuro. Segundo o Consenso da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) sobre distúrbios respiratórios do sono, a polissonografia em laboratório permanece como exame de referência para diagnóstico e estadiamento da apneia obstrutiva do sono em adultos.

O resultado vem como índice de apneia-hipopneia: abaixo de 5 eventos por hora, é ronco primário; de 5 a 14, apneia leve; de 15 a 29, moderada; 30 ou mais, grave. Esse número muda tudo. Um IAH de 3 pede medidas comportamentais; um de 35 provavelmente vai precisar de CPAP. Por isso eu insisto: antes de comprar travesseiro especial ou baixar aplicativo de exercícios, faça a polissonografia. O caminho terapêutico nasce dali.



Medidas comportamentais: o que você consegue mudar antes do consultório

Medidas comportamentais são o primeiro passo do tratamento para qualquer grau de ronco, e incluem controle de peso, posição ao dormir e ajustes na rotina noturna. A AASM (American Academy of Sleep Medicine) recomenda perda de peso como parte do tratamento em pacientes com sobrepeso ou obesidade que apresentam apneia obstrutiva do sono.

Dormir de lado reduz a obstrução da faringe — em muitos pacientes, o ronco acontece predominantemente em posição supina. Elevar a cabeceira da cama entre 15 e 20 graus também ajuda, principalmente quando existe refluxo gastroesofágico associado. Evitar álcool nas horas que antecedem o sono é outra medida com impacto real: como já discutimos no artigo sobre alimentos que pioram o ronco, uma revisão sistemática mostrou que o consumo de álcool antes de dormir piora o índice de apneia-hipopneia em aproximadamente 4 eventos por hora.

Essas medidas não resolvem tudo. Para ronco primário leve em paciente com sobrepeso, às vezes são suficientes. Para apneia moderada ou grave, são coadjuvantes — importantes, mas não substituem tratamento específico.

CPAP: o tratamento de primeira linha para apneia

O CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas) é o tratamento de primeira linha para apneia obstrutiva do sono em adultos que apresentam sonolência excessiva diurna, conforme a diretriz de prática clínica da AASM publicada no Journal of Clinical Sleep Medicine em 2019. O aparelho mantém uma coluna de ar contínua que impede o colapso da faringe durante o sono.


otorrino apresentando o CPAP

Eu costumo explicar assim: imagine um canudo que você sopra com força e ele não amassa. O CPAP faz isso com sua garganta a noite toda. Funciona? Sim, e de maneira consistente. A questão é adesão. Muitos pacientes não se adaptam à máscara logo de cara — e aí entra o trabalho do médico: ajustar interface, tipo de aparelho, pressão, acompanhar de perto as primeiras semanas. A própria diretriz da AASM recomenda intervenções educativas e de acompanhamento no início do uso.

Para apneia moderada a grave, o CPAP é a primeira opção. Para ronco primário sem apneia, normalmente não é indicado — existem alternativas mais proporcionais.

Aparelho intraoral de avanço mandibular (DAM)

O dispositivo de avanço mandibular é uma placa ajustável que projeta a mandíbula para frente durante o sono, aumentando o espaço na região da faringe. A diretriz conjunta da AASM com a Academia Americana de Odontologia do Sono (AADSM), atualizada em 2015, recomenda o aparelho intraoral como primeira opção para ronco primário em adultos e como alternativa ao CPAP em casos de apneia leve a moderada.

Na prática, eu indico o DAM em duas situações frequentes: paciente com ronco primário que quer uma solução objetiva, ou paciente com apneia leve a moderada que tentou CPAP e não se adaptou. A diretriz é clara: o dispositivo deve ser personalizado e ajustável (titulável), fabricado sob medida por dentista com formação em sono, e o paciente precisa fazer uma nova polissonografia com o aparelho para confirmar que está funcionando. Não é colocar e esquecer.

Os efeitos colaterais mais comuns são desconforto na articulação temporomandibular, salivação excessiva no início e, a longo prazo, pequenas alterações na mordida. O acompanhamento odontológico periódico faz parte do tratamento.

Exercícios orofaríngeos: terapia miofuncional

Exercícios orofaríngeos (ou terapia miofuncional orofacial) trabalham o tônus da musculatura da faringe, língua e palato mole, e têm evidência crescente no tratamento do ronco e da apneia leve a moderada. Um ensaio clínico randomizado conduzido por Ieto e colaboradores, publicado na revista Chest em 2015, demonstrou que exercícios orofaríngeos diários reduziram significativamente o índice de ronco — de 99,5 para 48,2 roncos acima de 36 dB por hora.

Antes desse estudo, o mesmo grupo da USP (Guimarães e colaboradores, publicado no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine em 2009) já havia mostrado que três meses de exercícios orofaríngeos diários reduziram o índice de apneia-hipopneia em aproximadamente 39% em pacientes com apneia moderada, além de diminuir a intensidade e frequência do ronco.

No Brasil, o Consenso Brasileiro de Fonoaudiologia do Sono, publicado pela Academia Brasileira do Sono, reconhece a terapia miofuncional orofacial como uma das modalidades de tratamento para ronco e apneia, atuando diretamente sobre a musculatura de vias aéreas superiores. O trabalho é conduzido por fonoaudiólogo com formação em motricidade orofacial, que orienta séries de exercícios personalizados — de língua, palato, faringe — com sessões semanais e prática diária em casa.

Vou ser direto: não é uma solução imediata. São três a quatro meses de exercícios regulares para notar resultado, e a adesão diária é fundamental. Mas para pacientes com apneia leve ou ronco primário que preferem uma abordagem sem aparelho, é uma opção com evidência científica real.

Tratamento da obstrução nasal: nariz livre, faringe menos sobrecarregada

Se o paciente não respira direito pelo nariz, a boca assume — e a respiração oral muda a dinâmica da faringe durante o sono, favorecendo o ronco. O tratamento da obstrução nasal crônica faz parte do manejo do ronco quando a congestão é um fator contribuinte identificável.

As causas mais comuns que eu vejo no consultório são rinite alérgica mal controlada, desvio de septo e hipertrofia de cornetos. A rinite alérgica responde a corticosteroide nasal e controle ambiental. Quando o desvio de septo é significativo e contribui para a obstrução, a septoplastia pode ser indicada — mas como tratamento do componente nasal, não como “cirurgia do ronco” isolada.

A nasofibrolaringoscopia é o exame que me permite avaliar toda a via aérea superior em consultório, do nariz até a laringe, e identificar onde está o ponto de obstrução. É rápido, feito no próprio atendimento, e direciona a conduta.

Cirurgia: quando entra na discussão

Cirurgia não é o primeiro passo no tratamento do ronco, mas entra na discussão quando existe uma causa anatômica identificável e os tratamentos conservadores não foram suficientes. O Consenso da SBPT sobre distúrbios respiratórios do sono situa os procedimentos cirúrgicos como alternativa em casos selecionados, considerando anatomia, gravidade e resposta a tratamentos prévios.

Os procedimentos que eu discuto com mais frequência no consultório:

Septoplastia com turbinectomia

Corrige desvio de septo nasal e reduz cornetos hipertrofiados. A indicação é restabelecer a permeabilidade nasal quando a obstrução é estrutural. Melhora a respiração nasal e pode reduzir o ronco quando a congestão nasal é fator contribuinte relevante.

Uvulopalatofaringoplastia (UPPP)

A uvulopalatofaringoplastia remodela os tecidos do palato mole, úvula e paredes laterais da faringe. É indicada quando a obstrução acontece predominantemente na região orofaríngea — o que precisa ser avaliado por exame endoscópico e, em alguns casos, por endoscopia do sono com sedação. O resultado depende diretamente da seleção do paciente: quando a indicação é precisa, o benefício é real; quando é genérica, a resposta é imprevisível.

Amigdalectomia no adulto

Adultos com amígdalas volumosas que contribuem para a obstrução faríngea podem se beneficiar da remoção, especialmente quando associada à UPPP.

Um ponto que eu sempre reforço: nenhuma cirurgia tem indicação universal para ronco. A escolha depende de onde está a obstrução, qual a gravidade da apneia e o que já foi tentado antes. Operar sem polissonografia prévia e sem avaliação endoscópica da via aérea é receita de frustração.

Como esses tratamentos se combinam

Na prática clínica, raramente um tratamento funciona sozinho para todos os componentes do ronco. A abordagem que eu mais uso envolve combinação: medidas comportamentais como base, um tratamento principal conforme o IAH (CPAP, DAM ou terapia miofuncional) e, quando necessário, correção cirúrgica de componente anatômico nasal ou faríngeo.

Um exemplo que aparece toda semana: paciente com apneia moderada, acima do peso, com desvio de septo. O caminho pode ser iniciar CPAP, orientar perda de peso, avaliar a obstrução nasal com nasofibrolaringoscopia e, se indicada, programar septoplastia para melhorar a própria adesão ao CPAP (porque um nariz entupido dificulta o uso da máscara). É uma construção, não um botão de desligar.

O mais importante é que cada paciente tem uma anatomia, um IAH e uma rotina. Não existe protocolo único. Existe avaliação individualizada, que é o que fazemos na consulta de especialista em ronco.

Perguntas sobre como diminuir o ronco

Qual é o primeiro passo para tratar o ronco?

Fazer uma polissonografia. É o exame que define se o ronco é primário ou se existe apneia obstrutiva do sono associada, e a gravidade. Sem ele, qualquer tratamento é escolhido às cegas.

O CPAP é o único tratamento para ronco e apneia?

Não. O CPAP é o tratamento de primeira linha para apneia moderada a grave, mas existem alternativas documentadas: aparelho intraoral de avanço mandibular para casos leves a moderados, exercícios orofaríngeos (terapia miofuncional) e cirurgia, quando indicada por avaliação individualizada.

Exercícios para a garganta realmente reduzem o ronco?

Sim, com evidência publicada. Um ensaio clínico de Ieto e colaboradores (Chest, 2015) mostrou que exercícios orofaríngeos diários reduziram significativamente o índice de ronco. Outro estudo do mesmo grupo (AJRCCM, 2009) mostrou redução de aproximadamente 39% no índice de apneia-hipopneia em três meses.

O aparelho intraoral funciona para todo tipo de ronco?

Não. A diretriz AASM/AADSM de 2015 recomenda o DAM para ronco primário e apneia leve a moderada. Em apneia grave, pode ser indicado quando o paciente não tolera o CPAP, mas exige acompanhamento odontológico e novo exame de sono para confirmar eficácia.

Quando a cirurgia é indicada no tratamento do ronco?

Quando existe uma causa anatômica identificável — desvio de septo, hipertrofia de cornetos, palato mole alongado, amígdalas volumosas — e os tratamentos conservadores não foram suficientes. O procedimento depende de onde está a obstrução, avaliada por exame endoscópico.

Mudar a alimentação ajuda a diminuir o ronco?

Controle de peso, evitar álcool antes de dormir e tratar refluxo gastroesofágico têm impacto documentado. Para uma orientação detalhada, publicamos um artigo sobre alimentos que pioram o ronco com as evidências disponíveis.

Posso usar descongestionante nasal toda noite para roncar menos?

Descongestionantes tópicos (vasoconstritores) não devem ser usados por mais de 5 a 7 dias — causam efeito rebote e rinite medicamentosa. Se a congestão nasal crônica contribui para o ronco, é necessário investigar a causa (rinite alérgica, desvio de septo, cornetos hipertrofiados) e tratar a origem.

Fontes

  1. Patil SP, Ayappa IA, Caples SM, et al. Treatment of Adult Obstructive Sleep Apnea with Positive Airway Pressure: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. J Clin Sleep Med. 2019;15(2):335-343. PubMed 30736887
  2. Ramar K, Dort LC, Katz SG, et al. Clinical Practice Guideline for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Snoring with Oral Appliance Therapy: An Update for 2015. J Clin Sleep Med. 2015;11(7):773-827. PMC 4481062
  3. Guimarães KC, Drager LF, Genta PR, et al. Effects of oropharyngeal exercises on patients with moderate obstructive sleep apnea syndrome. Am J Respir Crit Care Med. 2009;179(10):962-966. PubMed 19234106
  4. Ieto V, Kayamori F, Montes MI, et al. Effects of Oropharyngeal Exercises on Snoring: A Randomized Trial. Chest. 2015;148(3):683-691. PubMed 25950418
  5. Duarte RLM, Togeiro SMGP, Palombini LO, et al. Brazilian Thoracic Association Consensus on Sleep-disordered Breathing. J Bras Pneumol. 2022;48(4):e20220106. PubMed 35830079

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Nenhuma informação aqui substitui a avaliação médica presencial individualizada.


Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior — CRM 139704 SP | RQE 53167. Otorrinolaringologista com atuação em medicina do sono. Atende na Clínica Garrafa, em São Paulo (Vila Clementino), com foco em ronco, apneia obstrutiva do sono, CPAP e tratamento multidisciplinar de distúrbios respiratórios do sono.

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