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Otite no Verão e Otite no Inverno: quais as diferenças?

Descubra as diferenças entre otite de verão e otite de inverno. Causas, sintomas e tratamentos para prevenir e tratar infecções no ouvido.

Por Dra. Renata Christofe Garrafa — CRM 158107 SP | RQE 61485


Por que o tipo de otite muda com a estação

Os pais de crianças pequenas costumam perceber um padrão: no verão, a dor de ouvido aparece depois de piscina ou praia; no inverno, vem junto com o resfriado. Não é coincidência. As duas situações envolvem tipos diferentes de otite, com causas, localização anatômica e tratamento distintos. Entender essa diferença ajuda a identificar sinais de alerta, evitar condutas caseiras que podem piorar o quadro e saber quando procurar avaliação.

De forma resumida: a otite do verão costuma ser uma otite externa — inflamação do canal auditivo. A otite do inverno costuma ser uma otite média aguda — infecção no espaço atrás do tímpano. São condições diferentes, embora ambas causem dor de ouvido. Vou detalhar cada uma a seguir.

Otite externa — a otite do verão

A otite externa aguda, conhecida popularmente como “otite do nadador”, é uma inflamação do canal auditivo externo. A diretriz clínica da AAO-HNSF (Academia Americana de Otorrinolaringologia), atualizada em 2014 por Rosenfeld e colaboradores, define a condição como inflamação difusa do canal auditivo externo, podendo envolver também o pavilhão auricular e a membrana timpânica.

As condições do verão favorecem o quadro: a exposição prolongada à água (piscina, mar, parque aquático) deixa o canal úmido por tempo excessivo, alterando o pH e a microflora protetora. Isso cria um ambiente favorável à proliferação de bactérias — principalmente Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus. Trauma local por uso de cotonetes, introdução de objetos no ouvido ou limpeza excessiva do cerúmen (que tem papel protetor) agrava o risco.

Sintomas típicos da otite externa

  • 1. Dor de ouvido que piora ao puxar o pavilhão auricular ou ao pressionar o tragus (a cartilagem na entrada do canal)
  • 2. Coceira no canal auditivo, frequentemente como primeiro sintoma
  • 3. Sensação de ouvido “cheio” ou tampado
  • 4. Secreção clara ou amarelada saindo do ouvido
  • 5. Canal auditivo inchado e avermelhado ao exame
  • 6. Dor ao mastigar, por proximidade anatômica da articulação da mandíbula

A febre, quando presente, costuma ser baixa ou ausente — o que é uma pista clínica útil para diferenciar da otite média.



Otite média aguda — a otite do inverno

A otite média aguda (OMA) é uma infecção do espaço da orelha média, atrás da membrana timpânica. É uma das infecções mais frequentes da infância. A diretriz da AAP (Academia Americana de Pediatria) de 2013, publicada por Lieberthal e colaboradores na revista Pediatrics, permanece como referência clínica e estabelece critérios diagnósticos, indicações de tratamento e opções de observação.

A relação com o inverno é direta: infecções de via aérea superior (resfriados, gripes, rinossinusites) causam inflamação e edema da mucosa nasal e da tuba auditiva. A tuba, que normalmente ventila a orelha média e drena secreções, fica obstruída. A secreção acumula atrás do tímpano, e bactérias ou vírus encontram um ambiente propício para se multiplicar. Em crianças pequenas, a tuba auditiva é mais curta e horizontalizada, o que facilita essa dinâmica.

Sintomas típicos da otite média aguda

  • 1. Dor de ouvido de início rápido, frequentemente noturna
  • 2. Febre, podendo ser alta
  • 3. Irritabilidade intensa em lactentes que ainda não verbalizam a dor
  • 4. Sensação de ouvido tampado, com diminuição da audição
  • 5. Criança que leva a mão ao ouvido repetidamente
  • 6. Secreção (otorreia) caso haja perfuração timpânica — a dor costuma melhorar quando isso acontece
  • 7. Sintomas associados: coriza, obstrução nasal, tosse (do quadro respiratório que antecedeu)

A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) orienta que o sinal otoscópico de maior valor diagnóstico na OMA é o abaulamento da membrana timpânica. Por isso, a avaliação médica com otoscopia é indispensável — os sintomas sozinhos não confirmam o diagnóstico.

As diferenças no prático: causa, localização e conduta

Para os pais, a distinção pode ser confusa porque os dois tipos causam dor de ouvido. A tabela abaixo resume as diferenças centrais:

  • Localização: otite externa acomete o canal auditivo (antes do tímpano); otite média acomete o espaço atrás do tímpano.
  • Causa principal: otite externa — umidade prolongada e trauma local; otite média — infecção de via aérea superior que obstrui a tuba auditiva.
  • Estação típica: otite externa predomina no verão; otite média predomina no inverno.
  • Febre: incomum na otite externa; frequente na otite média.
  • Teste do tragus: dor ao pressionar o tragus sugere otite externa; na otite média, esse teste costuma ser negativo.
  • Tratamento: otite externa costuma ser tratada com gotas otológicas tópicas; otite média pode envolver antibiótico oral, observação com controle de dor, ou ambos, conforme o quadro clínico.

Essa distinção é clínica e depende da otoscopia. Faço questão de reforçar: o diagnóstico não é pelo sintoma isolado e não deve ser feito em casa.

Quando levar a criança ao otorrino

Toda dor de ouvido em criança merece atenção. Na maioria dos quadros leves, a avaliação pelo pediatra resolve. Mas há situações em que o encaminhamento para o otorrino pediatra é indicado:


otorrino avaliando otite na crianca
  • 1. Otites de repetição — três ou mais episódios em seis meses, ou quatro ou mais em doze meses
  • 2. Secreção persistente no ouvido sem melhora com tratamento inicial
  • 3. Suspeita de perda auditiva associada (criança que ouve menos, pede para repetir, volume alto da TV)
  • 4. Otite média com efusão que persiste por mais de três meses
  • 5. Otite externa que não melhora com tratamento tópico em 7-10 dias
  • 6. Quadros complicados (celulite periauricular, mastoidite, paralisia facial)

Na consulta, além da otoscopia, posso solicitar impedanciometria (para avaliar a mobilidade do tímpano e a pressão na orelha média) e audiometria (para medir a audição), quando o quadro justifica. Em casos de otite média recorrente com hipertrofia de adenoide, a nasofibrolaringoscopia ajuda a avaliar a obstrução nasal associada.

Prevenção: o que funciona em cada estação

Verão — prevenção da otite externa

  • 1. Secar os ouvidos depois de nadar — inclinar a cabeça para cada lado e secar a parte externa com toalha
  • 2. Não usar cotonetes nem introduzir objetos no canal auditivo
  • 3. Respeitar o cerúmen — ele protege o canal. Remoção excessiva aumenta o risco
  • 4. Evitar mergulhar em águas de procedência duvidosa ou com má qualidade de tratamento
  • 5. Se a criança tem otite externa recorrente, conversar com o otorrino sobre uso de protetores auriculares sob medida

Inverno — prevenção da otite média

  • 1. Manter a lavagem nasal com soro fisiológico durante resfriados — desobstruir o nariz ajuda a manter a tuba auditiva funcionando
  • 2. Vacinas em dia — a vacina pneumocócica e a vacina contra influenza reduzem a incidência de otite média em crianças
  • 3. Amamentação, quando possível — é fator protetor reconhecido para otite média na infância
  • 4. Evitar exposição passiva a fumaça de cigarro, que é fator de risco documentado
  • 5. Tratar adequadamente os quadros de rinite alérgica, que agravam a obstrução da tuba

Nenhuma dessas medidas elimina completamente o risco. Criança que convive com outras crianças pega infecção — faz parte do amadurecimento imunológico. Mas reduzir fatores agravantes diminui a frequência e a gravidade dos episódios.

O que eu oriento no consultório

Para os pais que chegam ao consultório com a criança com dor de ouvido, minha conduta é sempre começar pela história clínica e pela otoscopia. A partir daí:

  • Se for otite externa: o tratamento é predominantemente local (gotas otológicas), com orientação de manter o ouvido seco durante o período de tratamento. A melhora costuma acontecer em dias, mas a criança deve ser reavaliada se não houver resposta em uma semana.
  • Se for otite média aguda: avalio se há indicação de tratamento com antibiótico ou se o caso permite observação com controle de dor, conforme a gravidade, a idade da criança e se o quadro é uni ou bilateral. A diretriz da AAP de 2013 prevê essa diferenciação e eu sigo os critérios clínicos para cada decisão.
  • Se houver recorrência: investigo causas facilitadoras — hipertrofia de adenoide, disfunção tubária, rinite alérgica — e defino se há indicação de acompanhamento longitudinal ou de procedimento, como a colocação de tubo de ventilação ou adenoidectomia.

A orientação que repito para toda família: não pingar nada no ouvido da criança sem avaliação prévia. Gotas caseiras, óleos, azeite e “receitas da internet” podem agravar o quadro ou mascarar sinais que o médico precisa ver. E dor de ouvido com febre alta, secreção com odor ou inchaço atrás da orelha são sinais de alerta que justificam avaliação médica imediata.

Cada criança tem contexto clínico próprio. Nenhum artigo substitui avaliação presencial.

Perguntas que respondo frequentemente

Qual a diferença entre otite de verão e otite de inverno?
A otite de verão é a otite externa — inflamação do canal auditivo, associada a umidade e entrada de água. A otite de inverno é a otite média aguda — infecção atrás do tímpano, normalmente precedida por resfriado. Causas, sintomas e tratamento são diferentes.

Como saber se meu filho tem otite externa ou otite média?
Na otite externa, a dor piora ao puxar a orelha ou ao mastigar; na otite média, a dor é mais profunda e costuma vir com febre e resfriado. O diagnóstico preciso é pela otoscopia no consultório.

Posso usar cotonete para secar o ouvido depois da piscina?
Não. Cotonetes empurram cerúmen e podem lesar a pele do canal, facilitando infecção. O indicado é inclinar a cabeça e secar a parte externa com toalha.

Otite média sempre precisa de antibiótico?
Não necessariamente. A diretriz da AAP de 2013 permite observação com controle de dor em casos selecionados (crianças maiores de 2 anos, quadro unilateral, sem sinais de gravidade). A decisão é clínica e individual.

Otite de repetição é normal em criança?
Otites são comuns na infância, mas quando recorrem com frequência — três ou mais em seis meses — a criança deve ser avaliada pelo otorrino para investigar causas como adenoide, disfunção de tuba ou alergia.

Nadar com otite externa piora o quadro?
Sim. A recomendação é evitar contato com água no ouvido afetado durante o tratamento.

Existe forma de prevenir otite no verão?
Secar os ouvidos após nadar, não usar cotonetes, respeitar o cerúmen e evitar águas de procedência duvidosa reduzem o risco. Em casos recorrentes, protetores auriculares podem ser indicados pelo otorrino.

Quando devo procurar o otorrino pediatra?
Dor que não melhora em 24-48 horas, febre associada, secreção no ouvido, perda auditiva percebida ou episódios recorrentes justificam avaliação. Agende pelo formulário de contato da clínica.

Sobre a autora

Dra. Renata Christofe Garrafa é médica otorrinolaringologista com dedicação ao atendimento pediátrico (CRM 158107 SP | RQE 61485). Atende na Clínica Garrafa, na Rua Dr. Diogo de Faria, 1087, cj. 1001, Vila Clementino, São Paulo/SP. Mais informações em consultas/otorrino-pediatra.

Esta publicação tem caráter informativo e educacional. Não substitui avaliação médica individual. Em caso de dor de ouvido ou sintomas na criança, procure consulta presencial. Publicação em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023.

Fontes

  • Lieberthal AS, Carroll AE, Chonmaitree T et al. The diagnosis and management of acute otitis media. Pediatrics. 2013;131(3):e964-e999. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23439909.
  • Rosenfeld RM, Schwartz SR, Cannon CR et al. Clinical practice guideline: acute otitis externa (executive summary). Otolaryngol Head Neck Surg. 2014;150(2):161-168. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24492208.
  • Medina-Blasini Y, Sharman T. Otitis Externa. StatPearls [Internet]. Atualizado jul/2023. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32310515.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Otite Média — Pediatria para Famílias. Disponível em: sbp.com.br — Otite Média.
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