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Própolis vs Mel: qual é melhor para fortalecer a imunidade?

Otorrino Dra. Renata Christofe Garrafa explica o que pais devem saber sobre mel e própolis para imunidade em crianças, com base em diretrizes.

Por Dra. Renata Christofe Garrafa — CRM 158107 SP | RQE 61485

Por que tantas famílias me perguntam sobre mel e própolis

Quase toda semana um pai ou uma mãe me traz a pergunta no consultório: “Doutora, meu filho vive gripado, resfriado, com dor de garganta — posso dar mel? E própolis, ajuda a imunidade?” A dúvida é genuína e, na maioria das vezes, vem de uma família atenta, que está tentando cuidar bem. Antes de falar de mel e de própolis um a um, preciso deixar clara uma premissa: imunidade infantil não se resolve com um único produto. Ela se constrói ao longo da infância, com amamentação, vacinas em dia, sono adequado, alimentação variada, convivência social e cuidado com condições otorrinolaringológicas que atrapalhem a respiração ou o sono da criança.

Dito isso, existem evidências razoáveis sobre o uso pontual de mel em crianças maiores de um ano (especialmente para alívio de tosse aguda) e existem dados científicos sobre a atividade da própolis, mas com uma série de ressalvas que os pais precisam conhecer antes de dar qualquer produto para a criança. É disso que vou tratar aqui — com fontes oficiais e sem prometer resultado.

Mel para crianças: a idade importa, e muito

A primeira orientação é inegociável: mel não deve ser oferecido a crianças menores de 1 ano. O motivo é o risco de botulismo infantil, uma infecção grave causada por esporos da bactéria Clostridium botulinum que podem estar presentes no mel e que o intestino imaturo do bebê não consegue neutralizar. Tanto o Ministério da Saúde do Brasil quanto a Organização Mundial da Saúde reforçam essa orientação, e a Sociedade Brasileira de Pediatria inclui expressamente o mel entre os alimentos a evitar na fase de introdução alimentar, no guia prático de alimentação da criança de 0 a 5 anos.


otorrino falando- obre mel para criancas

O Ministério da Saúde descreve o mel como um dos alimentos mais perigosos nesse sentido para crianças pequenas, por justamente poder conter os esporos da bactéria. Ponto prático: não vale ninho, caseiro, orgânico, artesanal, da fazenda do tio. Nenhum tipo de mel é seguro para o bebê menor de um ano. Depois de um ano, essa restrição por risco de botulismo deixa de valer.

Mel e tosse em crianças maiores de 1 ano

Passada a idade de risco, o mel volta ao cardápio como alimento. E aí entra a pergunta clássica: ajuda na tosse? Aqui posso me apoiar em uma revisão Cochrane publicada em 2018, que analisou ensaios randomizados comparando mel com placebo, com a ausência de tratamento e com medicamentos como dextrometorfano e difenidramina em crianças de 12 meses a 18 anos com tosse aguda. A conclusão dos autores foi que o mel provavelmente alivia os sintomas de tosse mais do que nenhum tratamento, difenidramina e placebo, mas pode fazer pouca ou nenhuma diferença quando comparado ao dextrometorfano. Os próprios autores apontam limitações importantes — a maior parte dos estudos avaliou uma única noite de uso — e reconhecem que não há evidência forte a favor nem contra.

Na prática, isso significa: para uma criança maior de um ano com um resfriado comum e tosse noturna, uma colher de mel antes de dormir é uma medida razoável e apoiada em evidência de certeza moderada a baixa. Não é cura, não é antibiótico, não substitui avaliação quando a tosse persiste, quando vem com febre alta, quando piora em vez de melhorar ou quando há dificuldade para respirar. Nesses casos, a criança precisa ser examinada.

Própolis em crianças: o que se sabe e o que ainda não

A própolis é uma resina coletada pelas abelhas a partir de exsudatos de plantas. Tem uma química rica em flavonoides, ácidos fenólicos, terpenoides e outros compostos, e há literatura científica descrevendo atividades antimicrobiana, anti-inflamatória e imunomoduladora em estudos pré-clínicos e em alguns ensaios clínicos. Até aí, nenhum problema em reconhecer o interesse científico do produto.

O que os pais precisam saber antes de introduzir própolis na rotina da criança é o que vem depois desse primeiro parágrafo entusiasmado que costuma aparecer em sites comerciais.

Primeiro, a composição da própolis varia muito — entre regiões geográficas, entre espécies de abelhas, entre tipos de vegetação de origem. Isso quer dizer que dois produtos rotulados “própolis” podem ter perfis químicos bem diferentes, o que dificulta generalizar os resultados de estudos clínicos para qualquer extrato comprado em farmácia ou loja de produtos naturais.

Segundo, os estudos pediátricos específicos são poucos e heterogêneos. Não existe uma diretriz brasileira de pediatria recomendando própolis como estratégia para “fortalecer a imunidade” em crianças saudáveis. Isso é muito diferente das recomendações sobre vacinação, amamentação, alimentação e sono, que têm base em consenso científico sólido.


mel para criancas pode ou nao pode

Terceiro, a própolis pode causar reações alérgicas, incluindo dermatite de contato e, em indivíduos sensibilizados, quadros mais graves. Em criança com histórico alérgico, asma ou atopia, o cuidado precisa ser maior, e a introdução deve ser conversada com o pediatra.

Minha conduta no consultório no bairro da Vila Clementino, em São Paulo, portanto, é a seguinte: não proíbo própolis em criança saudável maior de dois anos, desde que a família entenda que não é uma medida com evidência robusta de prevenção de infecções, que a composição do produto importa e que o uso não substitui cuidados que sabidamente funcionam.

O que realmente ajuda a imunidade da criança

Quando os pais aceitam recuar um passo da pergunta “mel ou própolis?”, a conversa fica muito mais produtiva. O sistema imunológico da criança se desenvolve, em grande parte, com exposições controladas ao ambiente, à alimentação e aos agentes infecciosos comuns da infância. Não existe atalho em pote. Existe, isso sim, um conjunto de medidas com impacto real e mensurável:

  • 1. Amamentação exclusiva até os 6 meses, quando possível, e continuação em combinação com outros alimentos depois disso.
  • 2. Esquema vacinal em dia, respeitando o calendário do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria.
  • 3. Alimentação variada, rica em frutas, legumes, proteínas, com baixo consumo de ultraprocessados.
  • 4. Sono adequado para a idade, porque criança que dorme mal adoece mais e se recupera pior.
  • 5. Convivência social apropriada, inclusive com outras crianças, que é parte do processo de amadurecimento imunológico.
  • 6. Identificação e tratamento de condições otorrinolaringológicas que comprometam a respiração nasal, a audição ou o sono da criança.

Esse último item é onde meu trabalho entra. Criança que respira pela boca, ronca, tem amigdalite frequente, otite de repetição, obstrução nasal crônica ou perda auditiva tem chance real de melhorar infecciões recorrentes quando o quadro subjacente é diagnosticado e tratado — e isso nenhum mel, nenhuma própolis, nenhum suplemento resolve.

Infecções de via aérea de repetição: quando procurar o otorrino pediatra

Muitas famílias chegam ao consultório cansadas. Cansadas de ver a criança adoecer, cansadas de antibiótico atrás de antibiótico, cansadas de trocar creche, cansadas de ouvir que “é normal, criança adoece muito”. E, sim, criança pequena em fase de convivência social pega infecções com frequência — isso faz parte. Mas existem sinais que mudam o quadro de “normal” para “precisa ser avaliado”:

  • 1. Amigdalites recorrentes com febre e dor, principalmente quando há episódios frequentes no mesmo ano
  • 2. Otites de repetição, com ou sem perda auditiva temporária
  • 3. Respiração predominantemente pela boca, boca aberta para dormir
  • 4. Roncos frequentes, engasgos noturnos, sono agitado
  • 5. Voz anasalada persistente, obstrução nasal que não melhora
  • 6. Dificuldade escolar, atenção flutuante, cansaço diurno em criança que deveria estar descansada
  • 7. Suspeita de que a criança ouve menos do que deveria, atraso de fala

Nessas situações, a avaliação do otorrino pediatra permite identificar se há hipertrofia de adenoide, amigdalite de repetição com critérios clínicos, otite média com efusão, rinite não controlada, desvio de septo em crianças mais velhas ou outras causas que estejam por trás dos episódios recorrentes. Em alguns casos, o tratamento é clínico. Em outros, pode ser indicada avaliação para procedimentos como adenoidectomia ou amigdalectomia, sempre com critérios clínicos individuais e após exames complementares quando necessários, como a nasofibrolaringoscopia.

O que eu oriento, no prático, para os pais

Para fechar com orientação de consultório, o que eu costumo alinhar com as famílias:

  • Menor de 1 ano: nada de mel, em nenhuma apresentação, por nenhum motivo.
  • Maior de 1 ano: mel pode fazer parte da alimentação, e uma colher antes de dormir durante um resfriado com tosse noturna é uma medida razoável, com evidência Cochrane de certeza moderada a baixa.
  • Própolis: não proíbo em criança saudável maior de 2 anos, mas não é a primeira nem a principal medida para “fortalecer imunidade”, e em criança alérgica deve ser discutida com o pediatra.
  • Prevenção de verdade: vacinação, amamentação quando possível, sono, alimentação, cuidar da respiração nasal e do sono. É onde a evidência está.
  • Infecções de repetição: merecem avaliação, não mais um frasco na prateleira.

Nenhum artigo substitui a consulta individual. Cada criança tem história, antecedentes, exame físico e contexto próprios — e é na avaliação presencial que as orientações se tornam específicas e seguras.

Perguntas que costuma responder aos pais em consulta

A partir de que idade a criança pode consumir mel?
A partir de 1 ano de vida, pelas orientações do Ministério da Saúde e da OMS. A SBP também orienta evitar mel na introdução alimentar, entre os alimentos a não oferecer nessa fase.

Mel ajuda mesmo a tratar tosse em criança maior de 1 ano?
A revisão Cochrane de 2018 mostrou que provavelmente ajuda no alívio sintomático em comparação a nenhum tratamento, placebo e difenidramina, com evidência de certeza moderada a baixa. Não substitui avaliação quando há sinais de alerta.

Própolis aumenta a imunidade da criança?
Há estudos que descrevem atividade imunomoduladora da própolis, mas a evidência clínica pediátrica é limitada e não existe diretriz brasileira recomendando própolis para “fortalecer a imunidade” em crianças saudáveis.

Posso usar mel ou própolis em vez de antibiótico?
Não. Antibiótico só é prescrito quando há infecção bacteriana definida e indicação clínica. Produtos apícolas não substituem antibióticos.

Mel puro ou com limão, gengibre, alho — é melhor?
A evidência disponível é sobre o mel em si, como medida sintomática para tosse em crianças maiores de 1 ano. Adições populares não têm o mesmo respaldo de ensaio clínico.

Criança com rinite alérgica pode usar própolis?
Há risco de reação alérgica, sobretudo em pessoas com histórico atópico. O uso deve ser conversado com o pediatra antes.

Se meu filho tem amigdalite toda hora, o que fazer?
Procurar um otorrino pediatra para uma avaliação completa. Amigdalite de repetição tem critérios clínicos bem definidos para orientar conduta, incluindo quando a cirurgia pode ser indicada.

Como agendar consulta com a otorrino pediatra da Clínica Garrafa?
Pelo formulário de contato do site ou pelos canais de atendimento da clínica.

Sobre a autora

Dra. Renata Christofe Garrafa é médica otorrinolaringologista com dedicação ao atendimento pediátrico (CRM 158107 SP | RQE 61485). Atende na Clínica Garrafa, na Rua Dr. Diogo de Faria, 1087, cj. 1001, Vila Clementino, São Paulo/SP. Mais informações em consultas/otorrino-pediatra.

Esta publicação tem caráter informativo e educacional. Não substitui avaliação médica individual. Em caso de dúvidas sobre o quadro da sua criança, procure consulta presencial. Publicação em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023.

Fontes

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