Por Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior – Otorrinolaringologia e medicina do sono – CRM 139704 SP | RQE 53167
Última atualização: 26 de maio de 2026
Embora o estereótipo e o modelo clássico dos pacientes que têm ronco e apneia obstrutiva do sono sejam homens, hoje eu quero falar com outro grupo que frequentemente sofre em silêncio: as mulheres. Elas costumam ter uma sintomatologia diferente, e as mudanças ao longo da idade fazem com que a gravidade da doença também tenha uma apresentação distinta. Como especialista em ronco, vejo diariamente no consultório como a falta de informação sobre essas diferenças atrasa o diagnóstico e compromete a qualidade de vida de muitas pacientes.
Em 95% das vezes, a questão não é apenas se a pessoa ronca. É se esse ronco é só um barulho incômodo ou se ele é a versão sonora de um problema maior — a apneia obstrutiva do sono (AOS) — que está cobrando um preço alto sem ninguém perceber. Estudos recentes mostram que a prevalência de apneia do sono com AHI ≥5 é de aproximadamente 17% em mulheres, variando entre 4% e 50% dependendo da população estudada. No entanto, estima-se que 9 em cada 10 mulheres com apneia obstrutiva do sono permaneçam sem diagnóstico. Esse é o trabalho que eu faço: separar esses dois cenários e, a partir daí, conversar sobre o que dá para resolver.
Quais são os sintomas de apneia do sono em mulheres?
A apneia do sono em mulheres frequentemente se apresenta com sintomas não-específicos como insônia, sono fragmentado, irritabilidade, fadiga crônica, cefaleia matinal e roncos discretos. Diferente dos homens, que costumam apresentar roncos exuberantes e sonolência diurna intensa, as mulheres tendem a relatar queixas menos óbvias, o que dificulta significativamente o diagnóstico clínico inicial e contribui para o subdiagnóstico generalizado.
O primeiro ponto relevante sobre a apneia em mulheres diz respeito aos sintomas. Nos homens, é muito mais comum uma sonolência diurna intensa e roncos exuberantes. Já nas mulheres, a gente vai ver um quadro totalmente diferente. A queixa principal costuma ser um sono mais fragmentado e irritabilidade durante o dia. Os roncos são mais discretos e acabam tendo impacto em alterações de humor.
Muitas vezes, essas pacientes chegam ao consultório já em tratamento para doenças como ansiedade, depressão e insônia. O que poucos sabem é que essas condições podem ser diretamente impactadas ou até causadas por um quadro de ronco e apneia não tratada. A privação crônica de sono afeta a regulação emocional, e o que parece ser apenas estresse ou cansaço do dia a dia pode ser, na verdade, o seu corpo lutando para respirar durante a noite.
Tabela Comparativa dos sintomas de Apneia do Sono em Mulheres vs. Homens
| Sintoma | Mulheres | Homens |
|---|---|---|
| Ronco alto/exuberante | Menos comum (discreto) | Muito comum |
| Sonolência diurna intensa | Menos frequente | Muito frequente |
| Insônia/sono fragmentado | Muito frequente | Menos frequente |
| Irritabilidade/alterações de humor | Muito frequente | Menos frequente |
| Fadiga crônica | Muito frequente | Moderadamente frequente |
| Cefaleia matinal | Frequente | Menos frequente |
| Pesadelos/sono agitado | Frequente | Menos frequente |
| Depressão/ansiedade | Associação frequente | Menos frequente |
| Ganho de peso | Frequente | Frequente |
| Índice de Apneia-Hipopneia (AHI) | Geralmente mais baixo | Geralmente mais alto |
Por que o ronco em mulheres é subestimado?
O ronco em mulheres é subestimado porque apresenta características menos óbvias que o dos homens — roncos mais discretos, ausência de sonolência diurna clássica e sintomas que se confundem com outras condições como depressão e menopausa. Além disso, há um viés de gênero histórico na medicina do sono, com a maioria dos estudos focando em homens.
Existem várias razões pelas quais a apneia do sono em mulheres é frequentemente negligenciada. Em primeiro lugar, há um viés de gênero bem documentado na medicina do sono. Historicamente, a maioria dos estudos sobre apneia foram realizados em populações predominantemente masculinas, criando um “padrão ouro” de apresentação que não corresponde à realidade das mulheres.
Em segundo lugar, os sintomas das mulheres são menos específicos. Um homem que ronca alto e dorme demais é rapidamente encaminhado para avaliação. Uma mulher que relata fadiga, insônia e irritabilidade frequentemente recebe diagnósticos de depressão, ansiedade ou menopausa primeiro. O ronco, quando presente, é discreto e muitas vezes ignorado pela própria paciente e seu parceiro.
Em terceiro lugar, há uma confusão frequente entre sintomas de menopausa e sintomas de apneia do sono. Ambas as condições causam fadiga, alterações de humor e insônia. Muitas mulheres — e seus médicos — assumem que esses sintomas são “normais” da menopausa, quando na verdade podem ser causados ou agravados pela apneia não tratada.
Como a menopausa afeta o ronco e a apneia?
A menopausa afeta o ronco e a apneia devido à queda nos níveis de estrogênio e progesterona, hormônios que ajudam a manter o tônus muscular das vias aéreas e estimulam a respiração. Com essa variação hormonal, a musculatura relaxa mais durante o sono, aumentando significativamente o risco de obstrução respiratória. Estudos mostram que mulheres na pós-menopausa com baixos níveis de estrogênio e progesterona têm muito maior probabilidade de roncar e apresentar sintomas de apneia.
Uma característica extremamente relevante nas mulheres é justamente o climatério e a menopausa. As variações hormonais fazem com que a musculatura e o colágeno dessa mulher vão mudando. O estrogênio e a progesterona têm um papel protetor nas vias aéreas femininas durante a idade reprodutiva. A progesterona, por exemplo, estimula os centros respiratórios e ajuda a manter o tônus muscular da via aérea superior, melhorando a ventilação durante o sono.
Quando esses hormônios caem durante a menopausa, a proteção diminui. Isso faz com que, a partir desse período, a gente tenha que ficar ainda mais alerta para sinais e sintomas relacionados à apneia obstrutiva do sono. Não é incomum que mulheres que nunca roncaram comecem a apresentar o problema após a menopausa, muitas vezes confundindo os sintomas de fadiga e alterações de humor com os próprios efeitos do climatério.
Estudos epidemiológicos mostram que a prevalência de apneia do sono aumenta dramaticamente após a menopausa. Mulheres na pós-menopausa têm uma prevalência de apneia similar à dos homens da mesma idade, sugerindo que a proteção hormonal é um fator importante. Isso não significa que você está condenada a desenvolver apneia após a menopausa, mas significa que você deve estar mais atenta aos sinais.
Qual a relação entre apneia do sono e risco cardiovascular em mulheres?
A apneia do sono aumenta o risco cardiovascular em mulheres ao causar quedas repetidas de oxigênio no sangue (hipóxia intermitente), o que ativa o sistema nervoso simpático e eleva a pressão arterial. Após a menopausa, a combinação das mudanças hormonais com a apneia não tratada multiplica as chances de hipertensão resistente, infarto e acidente vascular cerebral (AVC). A apneia obstrutiva do sono é a causa secundária mais comum de hipertensão resistente, presente em 70-80% dos pacientes com pressão arterial não controlada.
Aqui a coisa fica mais séria. A relação entre apneia do sono e pressão alta é direta e perigosa. Consequentemente, os riscos cardiovasculares também aumentam por questões hormonais nessa faixa etária. A hipóxia intermitente — as quedas repetidas de oxigênio — ativa o sistema nervoso simpático, causando remodelamento vascular e aumento da rigidez arterial.
Mulheres com apneia do sono não tratada têm risco aumentado de:
- – Hipertensão arterial (presente em 70-80% dos casos de hipertensão resistente)
- – Infarto do miocárdio (risco aumentado de 2 a 3 vezes)
- – Acidente vascular cerebral (AVC) (risco aumentado)
- – Fibrilação atrial (arritmia cardíaca)
- – Insuficiência cardíaca (especialmente diastólica)
- – Doenças cerebrovasculares
Tratar a apneia não é só sobre “parar de roncar” ou dormir melhor. É cardiologia preventiva embrulhada em otorrino. Quando o sono é tratado adequadamente, observamos não apenas uma melhora na disposição, mas frequentemente uma facilitação no controle da pressão arterial e uma redução real no risco de eventos cardiovasculares graves.
Como é feito o diagnóstico de apneia do sono em mulheres?
O diagnóstico da apneia do sono é feito através de uma avaliação clínica detalhada seguida de exames objetivos como a polissonografia ou teste de apneia em casa. A avaliação clínica inclui anamnese detalhada, exame físico com nasofibrolaringoscopia para avaliar a anatomia das vias aéreas, e questionários validados. A polissonografia é o padrão-ouro para diagnóstico.
A avaliação inicial baseia-se em uma anamnese detalhada e um exame físico direcionado. Gosto muito quando o parceiro ou parceira vem junto à consulta, pois muitas vezes é a única testemunha das pausas respiratórias que a paciente não percebe. De acordo com as diretrizes da American Academy of Sleep Medicine (AASM), ferramentas clínicas e questionários sozinhos não devem ser usados para diagnosticar apneia do sono em adultos — é necessário realizar polissonografia ou teste de apneia em casa.
Durante a avaliação, peço ao parceiro para descrever:
- – Se o ronco é toda noite ou só em algumas noites
- – Se já presenciou pausas, engasgos ou despertares bruscos
- – Se há agitação durante a noite, sudorese ou idas frequentes ao banheiro
- – Se o ronco muda quando a pessoa dorme de lado, de barriga para cima, ou após beber álcool
Dessas respostas sai metade do plano de investigação.
Exames Diagnósticos para apneia do sono em mulheres
- – Polissonografia (PSG): Exame realizado em laboratório do sono que monitora múltiplas variáveis durante o sono, incluindo respiração, oxigenação, frequência cardíaca, movimentos oculares e atividade cerebral. É o padrão-ouro para diagnóstico.
- – Teste de Apneia em Casa (Home Sleep Apnea Test – HSAT): Dispositivo portátil que monitora respiração, oxigenação e frequência cardíaca durante o sono em casa. Mais conveniente que polissonografia e adequado para muitos casos.
- – Nasofibrolaringoscopia: Exame que permite visualizar diretamente a anatomia das vias aéreas superiores, identificando possíveis obstruções, desvios de septo, ou outras alterações anatômicas que contribuem para apneia.
O exame físico otorrinolaringológico é fundamental para identificar possíveis fatores anatômicos contribuintes. A avaliação da cavidade nasal busca por desvios septais, hipertrofia de cornetos, pólipos ou outras massas. A orofaringe é examinada para avaliar o tamanho e a posição das tonsilas palatinas, as características do palato mole e da úvula (flacidez, alongamento), e o espaço aéreo posterior.
Quais são as opções de tratamento para apneia do sono em mulheres?
O tratamento da apneia do sono em mulheres varia desde abordagens conservadoras (mudanças de estilo de vida) até dispositivos mecânicos (CPAP, dispositivos orais) e cirurgias específicas. O CPAP continua sendo o tratamento mais eficaz e é considerado o padrão-ouro. A escolha depende da gravidade, das preferências da paciente e da anatomia das vias aéreas.
O manejo do ronco e da apneia frequentemente se inicia com abordagens conservadoras. É importante avaliar alimentos que pioram o ronco e adotar medidas de higiene do sono, como:
- – Evitar álcool, sedativos e hipnóticos
- – Manter peso saudável (perda de peso de 10% pode reduzir significativamente a apneia)
- – Dormir de lado em vez de de costas
- – Elevar a cabeceira da cama
- – Tratar alergias nasais e congestão
- – Manter boa higiene do sono
Para casos moderados a graves, o uso do CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas) continua sendo o tratamento mais eficaz. O CPAP funciona mantendo as vias aéreas abertas durante o sono através de pressão de ar contínua. Estudos mostram que o CPAP melhora significativamente a qualidade de vida, reduz pressão arterial e diminui risco de eventos cardiovasculares.
Dispositivos Orais: Aparelhos que posicionam a mandíbula para frente, aumentando o espaço aéreo. São alternativas úteis para pacientes que não toleram CPAP.
Intervenções Cirúrgicas: Em situações específicas onde há alterações anatômicas claras, intervenções cirúrgicas podem ser indicadas:
- Uvulopalatofaringoplastia: Remove ou remodela tecidos moles da garganta. Eficaz em 60-80% dos casos para reduzir ronco
- Septoplastia: Corrige desvio de septo nasal
- Turbinectomia: Reduz hipertrofia de cornetos nasais
- Cirurgias de base de língua: Para casos com obstrução na base da língua
A escolha do tratamento deve ser individualizada, considerando a gravidade da apneia, a anatomia das vias aéreas, as preferências da paciente e a presença de comorbidades.
O impacto do ronco na qualidade de vida e nos relacionamentos
A relação entre ronco e intimidade sexual é complexa e subestimada. Uma mulher cansada, irritada e com sono fragmentado tende a ter menos disposição para todas as áreas da vida, incluindo seus relacionamentos. Quando a causa raiz — a apneia — é tratada, o clima costuma melhorar significativamente, pois dormir bem devolve a paciência e a presença.
A privação crônica de sono afeta a regulação emocional através de múltiplos mecanismos:
- • Redução de serotonina e dopamina (neurotransmissores do humor)
- • Aumento de cortisol (hormônio do estresse)
- • Inflamação sistêmica
- • Disfunção do sistema imunológico
Isso explica por que muitas mulheres com apneia não tratada relatam depressão, ansiedade e irritabilidade que melhoram dramaticamente após o tratamento.
Perguntas sobre Ronco em Mulheres
Ronco é normal em mulheres?
Não. Embora ronco seja mais comum em homens, qualquer ronco em mulheres deve ser investigado. Pode indicar apneia do sono, especialmente se acompanhado de outros sintomas como fadiga, insônia ou irritabilidade.
Posso ter apneia do sono sem roncar?
Sim. Muitas mulheres com apneia do sono têm roncos muito discretos ou praticamente imperceptíveis. Os sintomas principais podem ser fadiga, insônia e alterações de humor.
A menopausa causa apneia do sono?
A menopausa não causa apneia diretamente, mas o declínio hormonal aumenta significativamente o risco. Se você nunca roncou e começou a roncar após a menopausa, isso é um sinal de alerta.
Quanto tempo leva para melhorar com tratamento?
Muitos pacientes relatam melhora em fadiga e humor dentro de dias a semanas após iniciar CPAP. Melhoras na pressão arterial e função cardiovascular podem levar semanas a meses.
O CPAP é incômodo?
Inicialmente, sim. Mas a maioria dos pacientes se adapta em 1-2 semanas. Existem diferentes tipos de máscaras e configurações que podem tornar mais confortável.
Posso tratar apneia sem CPAP?
Depende da gravidade. Casos leves podem responder bem a mudanças de estilo de vida. Casos moderados a graves geralmente precisam de CPAP ou dispositivos orais. Cirurgias são opções em casos selecionados.
Meu parceiro ronca, mas diz que não tem apneia. Devo insistir?
Se ele tem ronco associado a outros sintomas (fadiga, sonolência, acordar cansado), vale a pena investigar. Apneia não tratada é um fator de risco cardiovascular importante.
Você deve procurar um especialista em ronco e apneia do sono se apresentar:
- • Ronco regular, mesmo que discreto
- • Sono fragmentado ou insônia crônica
- • Fadiga que não melhora com repouso
- • Irritabilidade ou alterações de humor
- • Cefaleia matinal
- • Acordar cansada ou com sensação de sufoco
- • Pressão arterial elevada de difícil controle
A avaliação especializada é importante porque apneia do sono não tratada é um fator de risco independente para doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral e morte súbita.
Se você é mulher, especialmente se está passando ou já passou pela menopausa, e acorda cansada, tem dores de cabeça pela manhã, sente-se irritadiça ou foi informada de que ronca, não ignore esses sinais. O ronco feminino pode ser mais discreto, mas os danos à sua saúde são igualmente graves. Procurar uma avaliação especializada é o primeiro passo para recuperar suas noites de sono e proteger seu coração.
A medicina do sono evoluiu muito nos últimos anos, e hoje temos ferramentas eficazes para diagnosticar e tratar apneia em mulheres. O importante é não aceitar fadiga, irritabilidade e insônia como “normais” — especialmente durante a menopausa. Muitas vezes, esses sintomas têm uma causa tratável.
Referências: