Por Dra. Renata Christofe Garrafa — CRM 158107 SP | RQE 61485
e Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior — CRM 139704 SP | RQE 53167
Com a colaboração de Danielle Oliveira da Silva Santos — Fonoaudióloga — CRFa [INSERIR NÚMERO].
Perda auditiva não é só “coisa de idoso”
Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo vivem com algum grau de perda auditiva, sendo 430 milhões com perda considerada incapacitante. Desse total, 34 milhões são crianças. No Brasil, dados da Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde indicam que cerca de 5,8 milhões de brasileiros apresentam algum grau de surdez, e de cada mil crianças nascidas, entre três e cinco já nascem com deficiência auditiva. A projeção da OMS para 2050 é de que mais de 700 milhões de pessoas terão perda auditiva incapacitante no mundo.
São números que ajudam a dimensionar o problema, mas que não traduzem o que acontece na vida prática do paciente: a dificuldade de acompanhar conversas, o constrangimento de pedir para repetir três vezes, o isolamento que se instala aos poucos e que muitas vezes é atribuído a cansaço, a desinteresse ou a “coisa da idade”. E é justamente aí que entra o preconceito — uma barreira que impede muitas pessoas de buscar avaliação e, quando indicado, de aceitar o uso de aparelho auditivo.
O paradoxo dos óculos: por que o aparelho auditivo carrega estigma
“Ninguém se constrange ao usar óculos”, observa o Dr. Luiz Herculano. “Óculos viraram acessório, objeto de estilo, sinal de intelectualidade. Já o aparelho auditivo ficou associado na cabeça das pessoas a fragilidade e velhice — e a verdade é que essa ideia não corresponde mais ao que os aparelhos são hoje, nem ao público que se beneficia deles.”
A Dra. Renata Garrafa complementa: “No consultório pediátrico eu vejo o outro lado dessa moeda. Quando orientamos a família de uma criança que precisa de aparelho, a preocupação quase sempre é com o que os coleguinhas vão falar, com o olhar da escola, com o medo de rotularem a criança. E o que eu digo é: se a gente não tratar a perda auditiva, o prejuízo para a fala, para o aprendizado e para o desenvolvimento social vai ser muito maior do que qualquer olhar de estranhamento.”
O estigma existe em todas as faixas etárias, mas tem consequências diferentes. No adulto e no idoso, o resultado mais comum é adiar indefinidamente a avaliação. Na criança, o atraso na reabilitação pode comprometer janelas de desenvolvimento de linguagem que não se reabrem do mesmo jeito depois.
O que a ciência mostra sobre intervir cedo
Uma das contribuições recentes mais relevantes ao tema é a Lancet Commission de 2020 sobre prevenção de demência, publicada por Livingston e colaboradores. A comissão identificou a perda auditiva como o fator de risco modificável com maior fração atribuível populacional para demência, com risco relativo estimado em 1,9. Em termos práticos, a comissão calculou que até 8% dos casos de demência poderiam, em tese, ser evitados com manejo adequado da perda auditiva — o que inclui diagnóstico, acompanhamento e uso de aparelho quando indicado.
É importante ser preciso aqui, porque circula na internet a ideia de que “perda auditiva multiplica por 5 o risco de demência”. Esse número apareceu em um estudo anterior que analisava especificamente a perda auditiva severa. A Lancet Commission de 2020, com metodologia mais robusta, trabalha com risco relativo de 1,9 para a perda auditiva como um todo — o que já é significativo, sem precisar inflar o número.
“É o tipo de dado que faço questão de explicar para o paciente e para a família”, diz o Dr. Luiz. “Não se trata de dizer ‘se você não usar aparelho, vai ter demência’. Ninguém merece esse tipo de alarmismo. Trata-se de dizer: ‘a gente tem um fator de risco modificável aqui, e tratar ele faz sentido dentro de uma abordagem mais ampla de cuidado com a saúde’.”
O estudo ACHIEVE: nuances que importam
Em 2023, o estudo ACHIEVE, publicado na Lancet por Lin e colaboradores, avaliou se o uso de aparelhos auditivos reduziria o declínio cognitivo ao longo de três anos em adultos com perda auditiva. A resposta foi nuançada: na população geral estudada, a intervenção auditiva não reduziu o declínio cognitivo de forma uniforme. Porém, no subgrupo de adultos com maior risco de declínio — aqueles que mais se beneficiariam — a intervenção mostrou efeito protetor.
Essa distinção é fundamental. A ciência não apoia a promessa de que “aparelho auditivo previne demência” de forma genérica. O que ela apoia é que a intervenção precoce pode ser parte de uma estratégia de prevenção, especialmente em populações de risco.
Aparelhos auditivos evoluíram — o preconceito não acompanhou
Parte do estigma vem da imagem que muitos ainda guardam: aquele aparelho volumoso, bege, com apito de microfonia. Os aparelhos de hoje são diferentes. Existem modelos intra-auriculares discretos, modelos retroauriculares compactos com conectividade sem fio, opções recarregáveis e dispositivos que se conectam diretamente ao celular. A tecnologia evoluiu em qualidade de som, conforto, autonomia de bateria e capacidade de se adaptar a diferentes ambientes sonoros.
“Quando o paciente experimenta pela primeira vez, a reação mais comum é surpresa”, conta Danielle Santos, fonoaudióloga da clínica. “Surpresa com o tamanho, surpresa com a qualidade do som, e muitas vezes uma frustração: ‘por que eu não fiz isso antes?’. O papel da fonoaudiologia na adaptação é justamente acompanhar essa fase — programar o aparelho para o perfil de perda de cada paciente, ajustar ao longo das primeiras semanas e orientar expectativas realistas. Aparelho auditivo não restaura a audição como ela era antes. Ele reabilita, e a reabilitação é um processo, não um evento.”
A escolha do modelo depende do tipo de perda, do grau, do estilo de vida e das necessidades do paciente. Não existe um aparelho que sirva para todos — o que existe é uma avaliação individualizada que começa pela audiometria e se desdobra na orientação conjunta do otorrino e da fonoaudióloga.
Perda auditiva na infância: o papel do otorrino pediatra
“A triagem auditiva neonatal — o teste da orelhinha — é a primeira oportunidade de identificar alterações auditivas, e é obrigatória no Brasil”, explica a Dra. Renata. “Mas nem toda perda auditiva está presente ao nascimento. Otites de repetição, infecções virais, uso de medicamentos ototóxicos e causas genéticas de manifestação tardia podem gerar perdas adquiridas ao longo da infância. E essas, muitas vezes, passam despercebidas por anos.”
Os sinais que os pais devem observar incluem: criança que não responde quando chamada de costas, que pede para aumentar o volume da televisão com frequência, que tem atraso de fala em relação aos colegas da mesma idade, que parece desatenta em sala de aula ou que apresenta dificuldade para compreender instruções em ambientes barulhentos.
“Quando há suspeita, a avaliação auditiva precisa ser feita. E se a perda for confirmada, o encaminhamento para reabilitação deve ser o mais precoce possível, porque o desenvolvimento da linguagem oral depende de o cérebro receber estímulo auditivo em janelas específicas de maturação”, diz a Dra. Renata. “Adiar por medo do preconceito tem custo real para a criança.”
A avaliação de uma criança com suspeita de perda auditiva na consulta com o otorrino pediatra pode incluir audiometria, impedanciometria e, em alguns casos, avaliação do processamento auditivo central.
Como identificar sinais de perda auditiva no adulto
“A perda auditiva no adulto costuma ser gradual, o que faz com que a pessoa se adapte sem perceber”, explica o Dr. Luiz. “Ela para de ir ao restaurante com amigos porque ‘é barulhento demais’, aumenta a TV até o vizinho reclamar, começa a responder errado em conversas e acha que todo mundo está falando baixo. Só que quem muda não é o mundo — é a audição.”
Sinais frequentes que merecem avaliação:
- 1. Pedir para repetir frases com frequência
- 2. Dificuldade para acompanhar conversas com mais de duas pessoas
- 3. Volume alto de televisão, rádio ou celular
- 4. Sensação de que as pessoas “engolem” as palavras
- 5. Zumbido persistente (pode acompanhar perdas auditivas)
- 6. Cansaço ao final de reuniões ou encontros sociais (fadiga auditiva)
- 7. Evitar situações sociais por dificuldade de acompanhar
A confirmação é feita pela audiometria — exame rápido, indolor e realizado na própria clínica. A partir do resultado, a conduta é definida pelo otorrino e pode incluir acompanhamento clínico, encaminhamento para reabilitação com aparelho ou investigação de causas tratáveis.
“Eu sempre digo ao paciente: se você tem um número no audiômetro que justifica aparelho e a queixa no dia a dia bate com esse número, a gente tem o que precisa para agir”, resume o Dr. Luiz. “A decisão é do paciente — mas a informação precisa ser honesta. E a informação honesta é que adiar raramente melhora o quadro.”
O passo a passo no consultório: o que esperar da avaliação
Na Clínica Garrafa, a investigação de perda auditiva segue uma sequência objetiva:
- Consulta com otorrino (adultos ou pediátrica, conforme a faixa etária) — anamnese detalhada, exame otoscópico, identificação de causas clínicas tratáveis (cerúmen impactado, otite, otosclerose, entre outras).
- Exames audiológicos — audiometria, impedanciometria e outros exames conforme indicação clínica.
- Discussão do resultado — o que o exame mostra, o que aquilo significa no dia a dia, quais opções existem.
- Quando indicado, reabilitação auditiva — acompanhamento com fonoaudióloga, seleção e adaptação de aparelho, acompanhamento no período de ajuste.
“A adaptação ao aparelho não é ligar e pronto”, reforça Danielle Santos. “O cérebro precisa de tempo para se readaptar aos sons que deixou de processar. As primeiras semanas podem parecer estranhas, e é normal. O acompanhamento fonoaudiológico nesse período faz diferença no resultado final.”
Perguntas que costumamos responder
Aparelho auditivo é só para idoso?
Não. A perda auditiva pode ocorrer em qualquer idade. A OMS estima que 34 milhões de crianças no mundo vivem com perda auditiva. O diagnóstico e a reabilitação precoce são importantes em todas as faixas etárias.
Perda auditiva aumenta o risco de demência?
A Lancet Commission de 2020 identificou a perda auditiva como fator de risco modificável para demência, com risco relativo de 1,9. Até 8% dos casos poderiam, em tese, ser evitados com manejo adequado da audição. Isso não significa que toda perda leva a demência — significa que tratar é uma medida de prevenção baseada em evidência.
Usar aparelho auditivo evita declínio cognitivo?
O estudo ACHIEVE (Lancet, 2023) mostrou que o benefício cognitivo foi observado em adultos com maior risco de declínio, não de forma uniforme em toda a população. A evidência apoia a intervenção precoce, principalmente em quem tem fatores de risco adicionais.
Como sei se estou com perda auditiva?
Os sinais mais comuns são pedir para repetir frases, aumentar o volume da TV, dificuldade em ambientes ruidosos e sensação de que as pessoas falam baixo. A audiometria confirma o diagnóstico.
Criança pode ter perda auditiva sem que os pais percebam?
Sim. Perdas leves ou unilaterais podem passar despercebidas por anos. Atraso de fala, desatenção e volume alto de TV em crianças devem levantar suspeita.
Os aparelhos auditivos atuais são visíveis?
Existem modelos intra-auriculares discretos e retroauriculares compactos. A escolha depende do tipo e grau de perda, definida após avaliação audiológica individualizada.
O que a fonoaudióloga faz na adaptação do aparelho?
A fonoaudióloga realiza os exames, orienta a seleção do modelo, faz a programação e acompanha o período de adaptação com ajustes conforme necessário.
Como agendar avaliação auditiva na Clínica Garrafa?
Pelo formulário de contato do site ou pelos canais de atendimento da clínica.
Sobre os autores
Dra. Renata Christofe Garrafa — CRM 158107 SP | RQE 61485 — é otorrinolaringologista com dedicação ao atendimento pediátrico. Atende na Clínica Garrafa, Vila Clementino, São Paulo/SP. Mais informações em consultas/otorrino-pediatra.
Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior — CRM 139704 SP | RQE 53167 — é otorrinolaringologista com atuação em medicina do sono e ronco. Atende na Clínica Garrafa, Vila Clementino, São Paulo/SP. Mais informações em consultas/especialista-em-ronco.
Danielle Oliveira da Silva Santos — Fonoaudióloga — CRFa [INSERIR NÚMERO] — é especialista em audiologia clínica e atua na Clínica Garrafa no diagnóstico audiológico e na reabilitação auditiva.
Esta publicação tem caráter informativo e educacional. Não substitui avaliação médica ou fonoaudiológica individual. Em caso de dúvidas sobre sua audição ou a de seu filho, procure consulta presencial. Publicação em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023.
Fontes
- World Health Organization (WHO). Deafness and hearing loss — Fact Sheet, mar/2026. Disponível em: who.int/news-room/fact-sheets/detail/deafness-and-hearing-loss.
- Livingston G, Huntley J, Sommerlad A et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. Lancet. 2020;396(10248):413-446. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32738937.
- Lin FR, Pike JR, Albert MS et al. Hearing intervention versus health education control to reduce cognitive decline in older adults with hearing loss in the USA (ACHIEVE): a multicentre, randomised controlled trial. Lancet. 2023;402(10404):786-797. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37478886.
- Biblioteca Virtual em Saúde / Ministério da Saúde. Dia Nacional de Prevenção e Combate à Surdez. Disponível em: bvsms.saude.gov.br/10-11-dia-nacional-de-prevencao-e-combate-a-surdez-3.