Por Dr. Luiz Herculano da Silva Júnior · Otorrinolaringologista CRM 139704 SP · RQE 53167 Publicado em 3 de dezembro de 2024 · Atualizado em 25 de setembro de 2026
Dor de garganta pode ser sinal de refluxo, sim. O ácido que sobe do estômago chega à laringe e irrita a mucosa, e a dor costuma vir com pigarro, tosse seca, rouquidão ou sensação de bolo na garganta. A nasofibrolaringoscopia (exame com uma câmera fina que entra pelo nariz), feita no consultório, mostra alterações que podem vir do refluxo e, principalmente, se os sintomas têm outra causa. Se a rouquidão não melhora em 4 semanas, é hora de fazer esse exame.
A gente chama esses sintomas de garganta de sintomas atípicos do refluxo, porque à primeira vista não lembram o refluxo. Eles aparecem quando o suco gástrico passa do esôfago e chega às partes mais altas da garganta, a laringe e a faringe.
Os sintomas do refluxo na garganta
Os sintomas que ligam o refluxo à garganta são estes:
- dor de garganta;
- sensação de algo parado na garganta, como um bolo ou um nó;
- pigarro frequente;
- tosse seca frequente;
- alterações da voz, como rouquidão.
Como esses sintomas não lembram o refluxo, muita gente demora a fazer a ligação. O contrário também é um risco, porque nem toda rouquidão vem do refluxo. Os sinais que pedem exame da laringe sem demora estão em Quando procurar atendimento.
O que é o refluxo gastroesofágico
O refluxo acontece quando o conteúdo ácido do estômago volta para o esôfago (o tubo que leva o alimento da boca até o estômago). Esse ácido irrita e inflama a mucosa do esôfago. Pequenas quantidades sobem de vez em quando em qualquer pessoa. Quando o refluxo causa sintomas que incomodam ou lesões, passa a ser a doença do refluxo gastroesofágico, a DRGE.
Entre o estômago e o esôfago existe uma válvula, o esfíncter esofágico inferior. Quando ela enfraquece, o ácido sobe com mais facilidade. Obesidade, tabagismo e consumo excessivo de álcool também estão correlacionados com o refluxo. A DRGE não fica só no esôfago e pode chegar à garganta.
O que é o refluxo na garganta
Refluxo na garganta é o nome popular do refluxo laringofaríngeo: o conteúdo do estômago sobe além do esôfago e chega à laringe e à faringe. A mucosa da laringe e da faringe se defende mal do ácido e da pepsina (uma enzima do estômago). Quando esse conteúdo chega até ela, irrita e inflama, e por isso aparecem a dor, o pigarro e a tosse.
A sensação de bolo ou de nó na garganta também tem nome, globus faríngeo (a impressão de que há algo parado na garganta). Pacientes com refluxo relatam essa sensação com frequência.
O exame que mostra a garganta
A nasofibrolaringoscopia é o exame que avalia a garganta de quem tem esses sintomas. Um tubo fino e flexível, com uma câmera na ponta, entra pelo nariz e mostra a laringe e a faringe na tela. O exame é feito no consultório, com anestesia local.
A diretriz sobre disfonia (rouquidão) da Academia Americana de Otorrinolaringologia, de 2018, recomenda não receitar remédio para refluxo a quem tem só rouquidão sem antes examinar a laringe. Por isso, antes de falar em remédio, eu examino a garganta. O exame mostra alterações que podem vir do refluxo, que sozinhas não confirmam o diagnóstico, e mostra se a rouquidão tem outra causa. Quando é preciso confirmar o refluxo, existem exames que medem o refluxo, como a pHmetria com impedanciometria, que o médico pede e que é feita em serviço especializado.
Como tratar a garganta irritada pelo refluxo
O tratamento tem três etapas, nesta ordem:
- Hábitos: as medidas do dia a dia, que estão logo abaixo.
- Remédio: o inibidor de bomba de prótons (IBP) e os antiácidos, que reduzem a acidez do estômago, e o alginato, que forma uma barreira contra o refluxo.
- Cirurgia: para quadros selecionados, pode ser uma das alternativas, e só depois que exames comprovam o refluxo.
Quando o refluxo chega à garganta, a evidência a favor do IBP é fraca. No refluxo laringofaríngeo, uma metanálise de 2019 (Lechien e colaboradores, The Laryngoscope) encontrou benefício pequeno do IBP em relação ao placebo, com resultados que mudam muito de um estudo para outro, e, das nove revisões publicadas até 2018, reunidas numa revisão sistemática de 2020 (Spantideas e colaboradores, Journal of Voice), seis concluíram que o IBP não supera o placebo. Por isso, usar ou não o remédio, por quanto tempo e em que dose são decisões da consulta, depois do exame.
Não existe um prazo definido para a dor de garganta do refluxo passar. Quando o IBP é indicado, o consenso internacional de San Diego, de 2025, considera 3 meses de uso o tempo para avaliar se os sintomas da garganta respondem, e, se eles continuam, o passo seguinte são os exames que medem o refluxo.
O que fazer no dia a dia com refluxo na garganta
- Eleve a cabeceira da cama, para diminuir o refluxo durante a noite.
- Evite deitar logo depois de comer.
- Evite refeições pesadas e gordurosas, principalmente à noite.
- Perca peso, se houver sobrepeso.
- Pare de fumar e reduza o álcool.
Embora pareçam simples, essas medidas mudam a rotina e, consequentemente, exigem mais de quem as adota. Elas ajudam a controlar os sintomas, mas sozinhas não resolvem todos os casos. Se a garganta continua incomodando, o próximo passo é o exame.
Quando procurar atendimento
Se a dor de garganta, o pigarro ou a alteração da voz voltam com frequência, procure avaliação com o otorrinolaringologista.
Rouquidão que não melhora em 4 semanas pede exame da laringe, mesmo em quem já sabe que tem refluxo.
Não espere as 4 semanas e procure atendimento logo se a rouquidão vier junto com um destes sinais:
- você fuma;
- há um caroço (massa) no pescoço;
- você usa a voz para trabalhar, como professor, cantor ou locutor;
- a rouquidão começou depois de uma intubação (o tubo de respiração usado na anestesia geral ou na UTI) ou de uma cirurgia de cabeça, pescoço ou tórax.
Nesses casos, a rouquidão precisa ser investigada como possível lesão da laringe, e só o exame separa isso do refluxo. Com o exame feito, a gente decide com você o tratamento adequado para o seu caso.
Vá ao pronto-socorro se a rouquidão ou a dor de garganta vierem com falta de ar ou com estridor (um ruído agudo e forte ao puxar o ar).
Procure atendimento logo, sem esperar, se houver dificuldade para engolir, perda de peso sem explicação, vômito com sangue ou fezes pretas.
Clínica Garrafa: Rua Dr. Diogo de Faria, 1087, cj. 1001, Vila Clementino, São Paulo. Telefone (11) 5082-5082, WhatsApp (11) 96080-2051 ou página de contato.
Fontes
- Stachler RJ e colaboradores. Diretriz sobre disfonia (rouquidão), atualização, da Academia Americana de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço (AAO-HNS). Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 2018. PMID 29494321. doi.org/10.1177/0194599817751030
- Lechien JR e colaboradores. Resultados do tratamento do refluxo laringofaríngeo: revisão sistemática e metanálise. The Laryngoscope, 2019. PMID 30597577. doi.org/10.1002/lary.27591
- Spantideas N e colaboradores. Inibidores de bomba de prótons no tratamento do refluxo laringofaríngeo: revisão sistemática. Journal of Voice, 2020. PMID 31160182. doi.org/10.1016/j.jvoice.2019.05.005
- Katz PO e colaboradores. Diretriz do American College of Gastroenterology para diagnóstico e tratamento da doença do refluxo gastroesofágico. The American Journal of Gastroenterology, 2022. PMID 34807007. doi.org/10.14309/ajg.0000000000001538
- Yadlapati R e colaboradores. Consenso de San Diego para sintomas laringofaríngeos e doença do refluxo laringofaríngeo. The American Journal of Gastroenterology, 2025. PMID 40197644. doi.org/10.14309/ajg.0000000000003482
- Vakil N e colaboradores. Definição e classificação de Montreal da doença do refluxo gastroesofágico. The American Journal of Gastroenterology, 2006. PMID 16928254. doi.org/10.1111/j.1572-0241.2006.00630.x
- Lechien JR e colaboradores. Diretriz europeia de prática clínica: manejo e tratamento da doença do refluxo laringofaríngeo. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology, 2024. PMID 39719472. doi.org/10.1007/s00405-024-09181-z