Por Dra. Renata Christofe Garrafa · Otorrinolaringologista CRM 158107 SP · RQE 61485 Publicado em 6 de junho de 2024 · Atualizado em 25 de setembro de 2026
Pode, para aliviar o sintoma, e a escolha da pastilha para dor de garganta depende do que tem dentro dela. As de mel, gengibre ou própolis e as com anestésico local podem ser usadas para aliviar a dor por pouco tempo, desde que você não tenha alergia a nenhum componente. Nenhuma delas trata a causa. As com anti-inflamatório pedem mais cautela, porque podem mascarar os sintomas de uma infecção bacteriana e não devem ser usadas por muitos dias. Procure atendimento se a dor passar de 7 dias, se vier com febre e placas de pus ou se ficar difícil respirar, engolir a saliva ou abrir a boca.
Dor de garganta é uma das queixas que eu mais recebo no consultório, e quase sempre vem com a mesma pergunta: “Doutora, posso usar pastilha para aliviar?”. A pastilha age no sintoma, que é a dor, e não trata a causa. Por isso, antes de escolher uma, a gente precisa saber de onde vem essa dor e reconhecer os sinais de que ela pede avaliação.
O que causa a dor de garganta
A dor de garganta é um sintoma: a mucosa da faringe (o fundo da garganta) está inflamada. Na maioria das vezes a causa é um vírus, o mesmo do resfriado, da gripe ou da COVID-19. Nesses casos, o tratamento é aliviar os sintomas enquanto o próprio organismo vence a infecção, e a maior parte das pessoas melhora em até uma semana.
Uma parte menor dos casos é bacteriana, como a amigdalite causada pela bactéria Streptococcus pyogenes. Nela, o antibiótico receitado pelo médico faz os sintomas passarem um pouco mais rápido e diminui o risco de complicações, como o abscesso periamigdaliano (acúmulo de pus ao lado da amígdala) e a febre reumática. Rinite alérgica, refluxo, ar seco, cigarro e uso excessivo da voz também irritam a garganta. Cada causa tem um tratamento, e por isso a pastilha usada por conta própria, por muitos dias, pode atrasar o diagnóstico.
Quando procurar atendimento
Se aparecer algum dos sinais abaixo, a pastilha deixa de ser a resposta e você precisa ser examinado.
Procure um pronto-socorro no mesmo dia se tiver
- dificuldade para respirar;
- dor tão forte que impede engolir líquidos ou a própria saliva, a ponto de a saliva escorrer pela boca;
- trismo (dificuldade para abrir a boca);
- voz abafada, como a de quem fala com uma batata quente na boca;
- a úvula (a campainha, aquela bolinha pendurada no fundo da garganta) empurrada para um dos lados.
Os quatro últimos são sinais do abscesso periamigdaliano, que o médico precisa tratar, muitas vezes drenando o pus.
Marque uma consulta com o otorrino se
- a dor passar de 7 dias sem melhorar;
- a dor piorar em vez de melhorar com os dias;
- vier febre junto com placas de pus nas amígdalas;
- as ínguas (gânglios) do pescoço ficarem inchadas e doloridas.
Tipos de pastilha para dor de garganta
As pastilhas vendidas na farmácia se dividem em quatro grupos, pelo que têm dentro: mel, gengibre ou própolis; anestésico local; anti-inflamatório; e antisséptico. Cada grupo alivia de um jeito e tem cuidados diferentes.
Pastilha de mel, gengibre ou própolis
São as mais leves e não têm remédio na fórmula. Umedecem a garganta e aliviam a sensação de arranhado. O mel tem estudo: no resfriado e em outras infecções de nariz e garganta, ele aliviou os sintomas mais do que o cuidado habitual. Para a própolis e o gengibre em pastilha, não há estudo clínico que mostre que previnem ou tratam infecção, e eles servem para o conforto. Quem tem alergia a própolis não deve usar.
Pastilha com anestésico local
A benzocaína e a lidocaína adormecem a garganta por algum tempo e ajudam quando a dor atrapalha engolir. O efeito é curto e a dor volta quando ele passa. Podem causar alergia. A benzocaína não deve ser usada em bebês e pede cuidado em crianças pequenas, porque pode causar metemoglobinemia (uma alteração do sangue que dificulta a chegada de oxigênio ao corpo).
Pastilha com anti-inflamatório
O flurbiprofeno e a benzidamina agem na inflamação. Num estudo com adultos com dor de garganta moderada a intensa, a pastilha de flurbiprofeno aliviou a dor, a dificuldade para engolir e a sensação de garganta inchada nas primeiras 24 horas mais do que o placebo. O estudo foi feito por pesquisadores do fabricante e analisou um subgrupo dos pacientes. Essa é a pastilha que mais pede cautela, e eu explico o porquê logo abaixo.
Pastilha com antisséptico
O cloreto de cetilpiridínio e a combinação de amilmetacresol com álcool diclorobenzílico agem sobre micróbios na superfície da garganta e aliviam o incômodo em quadros leves. Uma infecção bacteriana já instalada precisa de avaliação e, quando indicado, de antibiótico, e o antisséptico da pastilha não substitui esse tratamento.
Por que a pastilha com anti-inflamatório pede cautela
Primeiro, porque ela pode mascarar sintomas. A dor melhora, a pessoa demora a procurar o médico e, na hora do exame, o quadro fica mais difícil de avaliar. Numa amigdalite bacteriana, esse atraso adia o antibiótico.
Estudos observacionais encontraram mais abscesso periamigdaliano em pessoas com faringite que tomaram anti-inflamatório em comprimido, inclusive por automedicação. São estudos de associação e não provam que o remédio causou o abscesso. Eles avaliaram o comprimido, e a pastilha com anti-inflamatório não foi estudada à parte.
Segundo, porque ela não pode ser usada por muitos dias. Anti-inflamatório usado todo dia, por muito tempo, pode causar gastrite e até úlcera no estômago, e quem tem ou já teve úlcera não deve usar a pastilha de flurbiprofeno. Use pelo menor tempo possível e dentro do que diz a bula. Na pastilha de flurbiprofeno, a bula limita o uso a 3 dias e a 5 pastilhas por dia.
Terceiro, porque qualquer componente da pastilha pode dar alergia: o remédio, o corante ou o aroma. Se você já teve reação a algum anti-inflamatório, não use.
Qual pastilha usar em cada caso
Minha conduta segue a intensidade da dor e a presença de sinais de alarme:
- Dor leve, garganta arranhando, sem febre, depois de ar-condicionado ou de falar muito: pastilha de mel ou de gengibre, água ao longo do dia e as medidas de casa da seção abaixo.
- Dor que atrapalha engolir, sem nenhum sinal de alarme: pastilha ou spray com anestésico local, por poucos dias, para conseguir beber e comer.
- Garganta muito inflamada, vermelha e inchada: a pastilha com anti-inflamatório pode entrar, pelo menor tempo e dentro da bula.
- Qualquer sinal da seção “Quando procurar atendimento”, ou dor que passa de 7 dias: deixe a pastilha de lado e procure atendimento.
Esse cuidado diminui o principal risco da pastilha, que é aliviar a dor de uma amigdalite bacteriana e atrasar o antibiótico.
Outras formas de aliviar a dor de garganta
Além da pastilha, eu costumo recomendar medidas simples, que você faz em casa:
- Gargarejo com água morna e sal: meia colher de chá de sal num copo de água morna, de 3 a 4 vezes por dia. Alivia a sensação de garganta irritada.
- Água ao longo do dia: mantém a garganta úmida.
- Ar úmido: o ar seco, inclusive o do ar-condicionado, resseca a mucosa. Um umidificador no quarto deixa o ar menos seco.
- Chá morno com mel: camomila, gengibre ou erva-doce com uma colher de mel. Mel não se dá a bebês com menos de 1 ano. Tem um texto sobre própolis e mel aqui no site.
- Spray anestésico: para quem não gosta de pastilha, a lidocaína ou a benzocaína em spray adormecem a garganta do mesmo jeito. O spray de benzocaína também não deve ser usado em bebês.
- Descanso da voz: se a dor veio depois de falar ou cantar muito, fale o mínimo possível por alguns dias.
Mitos e verdades sobre pastilha
- “Todas as pastilhas são iguais.” Mito. Cada grupo tem um mecanismo e um cuidado diferente.
- “Pastilha natural não funciona.” Depende. O mel alivia sintomas de resfriado. A própolis e o gengibre em pastilha servem para o conforto e não têm estudo que mostre ação contra a infecção.
- “Posso usar pastilha no lugar do médico.” Mito. A pastilha alivia o sintoma e não faz diagnóstico.
- “Pastilha com anti-inflamatório pode ser usada por muitos dias.” Mito. O uso é curto e segue a bula.
- “Criança pequena não deve usar pastilha.” Verdade. Há risco de engasgo e mais sensibilidade a alguns remédios, como a benzocaína.
- “Pastilha pode esconder uma doença mais séria.” Verdade. Ao aliviar a dor, ela pode atrasar o diagnóstico, principalmente a de anti-inflamatório.
Perguntas frequentes
Criança pode usar qualquer tipo de pastilha?
Não. A criança pequena pode engasgar com a pastilha e é mais sensível aos efeitos de alguns remédios, como a benzocaína. A pastilha de flurbiprofeno só é indicada a partir dos 12 anos. Antes de dar qualquer pastilha ao seu filho, converse com o pediatra ou com o otorrino e prefira produtos indicados para a idade dele.
Pastilha com açúcar piora a dor de garganta?
Não há evidência de que o açúcar piore a inflamação. Quem tem diabetes deve escolher as versões sem açúcar.
Posso usar pastilha na gravidez ou na amamentação?
Antes de usar pastilha com remédio, fale com o seu médico. Alguns anti-inflamatórios não são recomendados na gestação nem na amamentação.
Pastilha cura a dor de garganta?
Não. A pastilha trata o sintoma, a dor, e não a causa. Quando a causa é bacteriana, quem trata a infecção é o antibiótico receitado pelo médico depois do exame.
Quantas pastilhas posso usar por dia?
Siga a bula do produto: cada uma tem o seu intervalo e o seu limite por dia. Se a dor passar de 7 dias, procure atendimento em vez de continuar com a pastilha.
Pastilha ajuda na dor de garganta por refluxo?
Alivia por pouco tempo e não trata a causa. O refluxo laringofaríngeo (quando o conteúdo do estômago sobe até a garganta) pede avaliação e tratamento próprios, com mudança na alimentação e nos hábitos e, às vezes, remédio receitado pelo médico. Há um texto sobre refluxo e dor de garganta aqui no site.
Posso usar pastilha junto com o antibiótico?
Sim, desde que o médico que receitou o antibiótico não tenha contraindicado. A pastilha alivia a dor enquanto o antibiótico começa a agir. Pergunte a ele qual tipo combina com o seu tratamento.
Qual a diferença entre pastilha e spray para a garganta?
Os dois podem ter os mesmos componentes, como anestésico ou anti-inflamatório. Muda o jeito de aplicar: a pastilha se dissolve devagar na boca, e o spray vai direto no fundo da garganta. Os cuidados com a composição são os mesmos.
A pastilha alivia a dor por um tempo. Se a dor passar de 7 dias, piorar ou vier com algum dos sinais de alarme, quem responde é o exame da garganta com um otorrinolaringologista. Nenhum artigo substitui a consulta presencial.
Referências
- Spinks A, Glasziou PP, Del Mar CB. Antibiotics for treatment of sore throat in children and adults. Cochrane Database Syst Rev. 2021;12:CD000023. PMID 34881426. doi.org/10.1002/14651858.CD000023.pub5
- Abuelgasim H, Albury C, Lee J. Effectiveness of honey for symptomatic relief in upper respiratory tract infections: a systematic review and meta-analysis. BMJ Evid Based Med. 2021;26(2):57-64. PMID 32817011. doi.org/10.1136/bmjebm-2020-111336
- Aspley S, Shephard A, Schachtel E, Sanner K, Savino L, Schachtel B. Efficacy of flurbiprofen 8.75 mg lozenge in patients with a swollen and inflamed sore throat. Curr Med Res Opin. 2016;32(9):1529-38. PMID 27146963. doi.org/10.1080/03007995.2016.1187119
- Piroulas C, Devillers L, Souty C, et al. Non-steroids anti-inflammatory drugs and risk of peritonsillar abscess in pharyngitis: a French longitudinal study in primary care. Fam Pract. 2019;36(4):425-430. PMID 30423110. doi.org/10.1093/fampra/cmy111
- Lepelletier D, Pinaud V, Le Conte P, et al. Is there an association between prior anti-inflammatory drug exposure and occurrence of peritonsillar abscess (PTA)? A national multicenter prospective observational case-control study. Eur J Clin Microbiol Infect Dis. 2017;36(1):57-63. PMID 27604832. doi.org/10.1007/s10096-016-2770-1
- AlAwadh I, Aldrees T, AlQaryan S, et al. Bilateral peritonsillar abscess: a case report and pertinent literature review. Int J Surg Case Rep. 2017;36:34-37. PMID 28531866. doi.org/10.1016/j.ijscr.2017.04.028
- Baldassari C, Shah RK. Pediatric peritonsillar abscess: an overview. Infect Disord Drug Targets. 2012;12(4):277-80. PMID 22338588. doi.org/10.2174/187152612801319258
- Shulman ST, Bisno AL, Clegg HW, et al. Clinical practice guideline for the diagnosis and management of group A streptococcal pharyngitis: 2012 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2012;55(10):e86-102. PMID 22965026. doi.org/10.1093/cid/cis629
- Vohra R, Huntington S, Koike J, Le K, Geller RJ. Pediatric exposures to topical benzocaine preparations reported to a statewide poison control system. West J Emerg Med. 2017;18(5):923-927. PMID 28874945. doi.org/10.5811/westjem.2017.6.33665
- Aricò MO, Caselli D, Stefanizzi P, Tafuri S, Aricò M. Infant botulism and honey exposure: global epidemiology, prevention policies, and communication strategies. Acta Paediatr. 2026;115(7):1429-1433. PMID 41964486. doi.org/10.1111/apa.70538
Clínica Garrafa, Vila Clementino, São Paulo: (11) 5082-5082, WhatsApp (11) 96080-2051 ou pela página de contato.